segunda-feira, abril 18, 2011

Amor Proibido - II


E quando muito queria lhe dizer algo, fazia silêncio. Assim, ele se inventou dentro de mim, por mais que tentasse reprimi-lo. Meu silêncio declarou meu amor mesmo quando eu ainda tinha medo. Meu silêncio lhe recitou versos antes de eu começar a tentar a poesia. Meu silêncio balbuciava o seu nome, mesmo quando você não estava por perto. Mas meu silêncio ficava ainda mais engrandecido quando eu falava com você. Estranho? 
Quando agente conversava, eu também estava fazendo silêncio.

Fernando Palma


Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas.


Texto publicado originalmente em Junho de 2005


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sexta-feira, abril 15, 2011

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos - I





“E depois?” “As estrelas.” “E depois das estrelas?“ “As estrelas das estrelas...” “E depois?” Risos. “Ah, não sei. Vira pra cá, vai... Você me deixa escrever seu rosto?” “E como é isso de escrever um rosto hein?” “É o mesmo que desenhar. Só que por dentro.”


Fernando Palma









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quinta-feira, março 24, 2011

Abraço

Texto originalmente escrito em 04/09/05






É que a melhor forma que encontrei de receber abraços foi os dando.
É preciso acreditar em abraços para que eles realmente existam em sua vida. É preciso acreditar neles para enxergá-los. É preciso enxergar não só os abraços compostos de braços mas também os abraços de palavras. É preciso aprender também a enxergar os abraços em silêncio. Com tempo você descobre como abraçar, embora algumas pessoas simplesmente não aprendam. Se uma pessoa não te abraça da maneira que você espera não significa que ela não esteja te abraçando. Abraço também requer habilidade. É preciso ensinar a abraçar para ser abraçado. É importante aprender diversas maneiras de abraçar quem você gosta. Fica muito mais divertido. Até que chegue o momento que se permita implementar um forte abraço com os braços mesmo.


Todo dia alguém tenta te abraçar e você nem percebe.




Fernando Palma





Ps: Este texto é uma homenagem a amiga Princess. E é , também, um abraço.


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sábado, fevereiro 26, 2011

Amores e Sonhos em Liquidação



I

Não tenho talento para negociar. Não aprendo nunca. Prometo-me ser firme, cobrar mais da próxima vez, exigir algo justo, que valha a pena. Mas chegando o momento, acabo sendo flexível, como sempre. Já desisti de tentar me valorizar. O meu amor é amostra grátis.

***


II
“É que meus sonhos têm juros muito altos, sabe?”

“Sei como é. O sonho não para nuca de crescer, crescer...”


“Não é bem isso. É que toda vez que finalmente posso pagar o preço, já ficou mais caro.”

***


III
Desconfio desses amores baratos que estão à venda por ai nas esquinas, nos bares, no trabalho, não perco meu tempo nisso. Juram que é verdadeiro, mas estragam nos primeiros meses de uso, às vezes nem chegam a funcionar. Por isso que eu estou economizando, juntando, paciente, guardando para investir. Ai você vai ver. Eu vou ter um do bom pra mim. Do melhor.

***



IV
Vendo um sonho não realizado com dez anos de uso. Acompanha três moedas especiais para lago do desejo, sete fitinhas do senhor do Bonfim e um trevo de quatro folhas. Aceito troca em qualquer realidade concreta em bom estado.

***



V
“Tem mais daquele sentimento bom de ontem ai?”

“Esqueça, já esgotou”.








//texto publicado em Julho de 2007






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terça-feira, novembro 23, 2010

Amor Proibido - VI

Deixo sua lembrança me amanhecer. Abrevio sua face à cabeceira da cama. O dia já não é um qualquer, chega com maior riqueza de significados e até o silencio parece querer me dizer algo. É uma agressão tentar não pensar em você. Infantilizo sentimentos pela manhã para brincarmos de nos desejar pela tarde. As mãos dos meus olhos corrompem distâncias para tocar o seu corpo, ultrapassam qualquer lei existente na física, meu suspiro é minha voz sonolenta tentando te dar um bom dia. Esqueço o relógio, o tempo que você mora dentro de mim não pode ser medido por minutos, o tempo que eu te esqueci foi só uma maneira de te amar mais. Excedo-me para pagar os desejos atrasados, quero te confessar as mais reprimidas vontades que me tomaram de vez em quanto, por todos esses anos. Eu estou atrasado na sua vida, mas estou na sua vida. E agora não somos mais reféns do que aconteceu, somos donos do que estar por acontecer.


Fernando Palma


Ps: texto de setembro de 2006.






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sábado, maio 29, 2010

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

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quarta-feira, novembro 11, 2009

Vanessa Bencz

Relato de um sol eterno


A primeira pessoa que vejo, ao abrir os olhos pela manhã, é a minha irmã mais velha. Dividimos o mesmo quarto há 23 anos. Ela dorme na cama à minha direita, como se fosse meu braço direito, meu leste. Ela me amanhece.
Em pequena, eu tinha dificuldades para pronunciar seu nome. Me acostumei a chamá-la por uma simples sílaba: Di. Só eu a chamo assim, ela só atende ao apelido quando é dito pela minha voz. A alcunha necessita de tom musical, carga emocional e um riso no canto da boca que apenas eu sei dar.
Di é dois anos mais velha que eu. Quando eu tinha seis anos, minha tia fez para mim a fatídica previsão que os parentes sempre fazem para adivinhar as crianças da família:
- Essa menina vai dar baixinha. Sua irmã mais velha, não. Vai dar moça alta, de pernas compridas.
Escondi-me ainda mais na baixa estatura e na franja loira. Di era criança alta, bonita e precoce. Criança irreal de filme estrangeiro. Criança que sabe conversar sobre a previsão do tempo, o governo Collor e a queda da bolsa de valores. E eu mal sabia soletrar meu próprio nome. Tinha dificuldades com a letra s.
Tornei-me uma pré-adolescente tímida e egoísta. A lição de solidariedade veio pela minha irmã. Certa vez, no colégio, meus colegas riam de mim por um motivo que não lembro mais. Di chegou, fez um sermão com dedo em riste, e as crianças se calaram. Exceto por um menino gorducho e feioso, que teimava em continuar rindo. Di deu-lhe quatro murros na orelha, e o moleque se calara. Tempos depois, eu faria o mesmo pelo meu irmão mais novo.
No começo da fase adulta, Di precisou fazer uma cirurgia de emergência. Fui visitá-la no hospital e, ao vê-la na cadeira de rodas, desabei num choro frenético e desmaiei de pressão baixa. Saímos juntas do hospital, cada uma em sua cadeira de rodas.
Hoje em dia, Di e eu temos a mesma altura. Nós somos o mesmo território vasto de lembranças. Nossos sonhos se misturam de noite e nossa telepatia se entrecruza durante o dia. Di me amanhece.


Vanessa Bencz 

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segunda-feira, outubro 26, 2009

Rascunhos


Desenhei palavras vazias. Corri três rascunhos, parei ofegante. Revisei imaginação, aparei as pontas dos dedos, fiquei tentado encontrar uma maneira de emendar poemas.
Tomei estrada, dirigi textos sem rumo, além do horizonte de dentro de mim. Apertei acelerador, atropelei uma saudade que atravessava a rua. Passei para visitar um rascunho antigo, a casa tava imunda. 
Notei um poema semeando na mão direita, animei a esquerda, curvei as costas dos braços, puxei o teclado tentando fazer germinar. Rabisquei um grito, confundi o inicio, briguei com a segunda estrofe, apanhei de uma antítese, sai para procurar uma analogia melhor. Irritado, memorizei a origem da inspiração para saber exatamente onde não voltar a consultar. 
Tentei hidratar algumas idéias secas guardadas na gaveta, procurei por palavras potáveis. Caminhei em círculos por versos, fiquei tonto, mas não parei. Senti fome, fritei alguns pastéis em Mario Quintana.
Falei a um amigo sobre aquela questão emendar poemas, ele sorriu e mudou de prosa - notei algumas ameaças metafóricas cintilando no enredo da conversa dele, mas não acho que ele tenha percebido. 
Voltei para as palavras vazias. Reli o esboço, inverti o inicio, assassinei dois pensamentos covardes, motivei paradoxos, entortei as linhas, escorreguei na terceira estrofe, colidi na conclusão, bruscamente. Quase um acidente fatal. Fui sentindo uma certa falta de organização, desordem de idéias, mudança de ritmo. Uma bagunça.
Comecei a gostar.


Fernando Palma


Ps:Escrito em Outubro de 2006
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terça-feira, outubro 20, 2009

A História do Poeta Bom-De-Briga.



Escolheu a palavra como defesa pessoal. Aprendeu a dar os primeiros golpes ainda na infância, usando seus cadernos-sacos-de-pancada, guardados no ringue secreto do quarto. Criou a mais complexa arte das imobilizações metafóricas, inspirações herdadas por ascendência familiar, nomes consagrados. Nunca fazia demonstrações em publico, mas era conhecido em todos lugares pelas habilidades quase sobre-humanas de violência textual. Intocável, seguia com esmero de si palavreando risos, mas deixava sempre caneta afiada nas pontas dos dedos, arma nobre disposta a qualquer imprevisto poético ou até mesmo para o cotidiano. Derrubou a dor a pancadas paradoxais, matou friamente o medo da reprovação-poética com agressões metalingüísticas. Desafiou os mais temidos inimigos pessoais e ante-literários. Quando vieram as paixões escolheu os versos, quando a solidão, a prosa.

Um dia, tentou fazer um pouco de silêncio e foi assassinado.





 Escrito em Setembro de 2006






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quinta-feira, outubro 15, 2009

Danii - II





Não projete demais, não calcule, apenas fique por perto. Não hesite. Nem por três milésimos. Pense por três segundos: o que representam três anos? De onde vem a matemática do amor? Não há números em nossos encontros, Danii, apenas versos. Escrever para você é como imitar um poema já composto. É como copiar nossa própria poesia. E depois, esperar para saber se você achou que eu fiz parecido. Hoje, só desejo isso, que leia e se mantenha por perto. Não calcule, não tenha medo, simplifique. A simplicidade é a perfeição dos apaixonados. A perfeição é uma apaixonada pela simplicidade. Danii, o que nossos atos erram, a natureza se ocupa em reparar. Nunca se esqueça. Quando nos dizemos as palavras erradas, ainda assim, nos dizemos as palavras certas. Quando nos dizemos as palavras certas, é como nos dizer o absoluto, como adivinhar o pensamento, o futuro, como a felicidade de uma criança, "o paraíso". Dizer as palavras certas é como escrever algo inatingível, perfeição inalcançável. É quase um silêncio.


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terça-feira, outubro 13, 2009

O ponteiro invisível do tempo - II

Escrito em Janeiro de 2006




Repetia as mesmas palavras com poucos tropeços. Encorajava a si mesma, de uma coragem medrosa. Era só um recomeço. O silêncio das fotografias espalhadas no quarto somava o frio, que a desconfortava sempre neste instante, começo de noite. Não importa o tempo lá fora, o frio era sempre o mesmo.

Já não era mais uma menina. A juventude começou a desgastar as cores, as luzes perderam a intensidade. Sobraram apenas frestas de esperanças adolescentes, enfraquecidas pelas datas, quando completam novos aniversários. Pequenos brilhos. Restos, que na maioria das vezes, nunca conheceram sua forma completa. Metades de sonhos, solitárias, que não ousaram ensaiar finais para princípios de desejos, envergonhados por desrazões maiores. As coisas são quando há de ser, dizia vó. Mas o que será que há de ser, agora? O caminho não parece ruim, é verdade, mas falta força ao caminhar, pés já não seguem descalços sem que machuquem. Tudo fere. Os joelhos doem, de dor do coração. Sentada em sombra de aflições, soava uma canção aguda de suspiros breves, enquanto folheava saudades borradas em cadernos antigos, aposentados por invalidez do tempo. Rascunhos de amores. Ela tecia novos sonhos nos cantos dos olhos, apenas nos cantos, enquanto juntava seu corpo para tentar escapar de um frio que insiste em seu quarto por mais cobertores usados, ou maior número de agasalhos que sejam vestidos. Porque é um frio que vem de dentro.


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quinta-feira, outubro 08, 2009

O Hospedeiro – Biografia Resumida

Para Marcelo Cantalice
















Nasci nas ruas de pensamentos solitários. Não tinha sentimento para morar. Fui explorado por medos que me aprisionaram distante de onde eu era. Desisti de me libertar por muito tempo, até que um dia tentei. Fugi, e por não saber para onde ir, morei na própria ida. Falido, vivia em personalidades de aluguel, das mais baratas que encontrava. Cheguei a erros que me furtaram algumas esperanças que economizei desde cedo. Cheguei ao passado disfarçado de futuro. Cheguei a paixões que nem sempre chegaram a mim. Sem saída, cheguei à tristeza. Mas minha tristeza nunca soube me acolher. Cheguei a sonhos, depois à insegurança. Depois a sonhos. Voltei, encorajei, passava por contradições na ida-volta-e-não-ida. Guardei o endereço de algumas palavras que fiz amizade no caminho, mas nunca encontrei as verdadeiras palavras que me inventaram.

Hoje, superei meu abandono e transformei-me em uma re-invenção de mim. Não procuro mais onde viver, realizei meu sonho: sou casa própria. Estou sempre em obras e aberto a visitas. Uma moradia sólida, espaçosa e um hospedeiro insaciável: abrigo mais do que fui capaz de ser.

Sou muito mais do que já fui capaz de abrigar.

Fernando Palma, Junho de 2007

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sábado, setembro 05, 2009

Latas

Como uma antiga coleção de latas. Numerosa. Refrigerantes, cervejas importadas, fertilizando a ambição ainda juvenil. Organizadas, compartilhando o pedaço de conquista, a lata rara, diferente, esmero em cada uma no superior da coleção. O brilho. O anseio de acumular sem razão, aglomerar, colecionar sem haver fim premeditado: ao contrário do álbum de figurinhas, onde a ultima sempre limita o objetivo do colecionador, como se a conquista atingisse limite de tamanho máximo. A coleção sem regra, sem número, latas, ninguém sabe ao certo quantas estão na prateleira, muito menos a quantas chegar. Apenas estão, cada dia expandidas, numerosas, orgulhadas. E por um momento, se a janela está aberta demais, um esbarro mais forte na estante velha, ou uma lata é retirada de baixo, um descuido, um instante, e todas vão ao chão, espalhadas, feridas. O ruído que silencia. A pausa.

Sou como uma velha coleção de Latas: se me desarrumam, sei exatamente como me re-organizar. Mas dá trabalho.



Fernando Palma, Setembro de 2009





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sábado, junho 16, 2007

Baseado em Personagens Reais - II

Era um homem dedicado ao destino, fiel, comprometido com a dor. Perdeu a esposa aos quarenta e chorou para sempre. Fim de ano, os filhos traziam alguns presentes para pausar sua melancolia. Depois, rendidos, iam embora carregando consigo a própria saudade. No trabalho, discutia a todo tempo com a solidão, de maneira impiedosa. E ela escutava tudo, sem reclamar. Até que finalmente ele e a solidão saiam para aliviar a relação no boteco. E quando a tarde enfraquecia, voltavam os dois abraçados em embriaguez pelo caminho de casa. Já iam mais de três anos, me peguei bem próximo e não resisti, perguntei se não restava nada. Ele cutucou com os dedos a memória de forma semi-engraçada e foi a única vez que nasceu algo desse sujeito que me fez rir. Respondeu que havia uma esperança num lugar intocável, bem guardada. Tão bem guardada que provavelmente já esquecera onde pôs, deduzi, juntando um pouco de compaixão. Não lembro qualquer outra prosa. Lembro que tinha lá sua postura mais ou menos elegante de curvar o corpo ao caminhar. E reconheço que cultivei uma certa admiração por sua sabedoria individual. Individual porque era sábio consigo, mas os outros pouco percebiam. Ele tinha a inteligência de enganar seu próprio desespero com uma tranqüilidade misteriosa que nascia em volta das rugas dos olhos e ia até os dedos, esticados, em sono profundo. 

Lembro também de tê-lo visto um pouco antes da notícia, sentado numa esquina, se exibindo para a timidez. O copo de cerveja sempre de mãos dadas com ele. Nada mais posso narrar sobre o momento, é uma pena. Na verdade, a vida já o tinha deixado há muito tempo, o tempo que se atrasou em pedir que a morte viesse ocupá-lo.

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terça-feira, junho 12, 2007

Danii






Decifre o acaso para adivinhar nosso destino. Observe o dia que te pede atenção. Não leve o tempo a serio, jogue fora o relógio, chegue mais perto. Vamos brincar de ter treze anos. Sorria. Conte-me tudo que já viveu, mas não tenha pressa. Repita isso que acabou de fazer. Faça algo que nunca pensou antes. Ajude a nutrir este meu vício infantil de exagerar. Sorria, Danii, eu sei que você também gosta de sonhar meus sonhos. Coloque nossas musicas para tocar, lembre nossas palavras, não esqueça dos espaços vazios entre as palavras. Nosso silêncio também deixou suas marcas, Danii. Sorria. Preste atenção quando eu não te disser nada. Esqueça que já teve medo, esqueça todo o resto, seja educada com o dia que te pede atenção. Ofereça algo para retribuir. Feche os olhos, feche-os e enxergue um pedaço de história. A história que só nós dois conhecemos os detalhes. Só nós somos donos de nossos detalhes, Danii, sempre seremos, perceba o que acontece, sorria. Esqueça que já teve medo, aprenda tudo novamente. Depois me ensine o que aprendeu. Chegue mais perto, viaje no tempo, daquele dia até o momento, viaje até agora. Até aqui.

Sorria, Danii, hoje é dia dos namorados.



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sexta-feira, junho 08, 2007

Pedaços de Histórias - I


O Bolo
Rompeu com a covardia. Procurou a coragem. Marcou encontro, dia, horário, lugar. Finalmente iria conquistá-la. Como sempre sonhou.
Mas a coragem faltou.

***


Descanso
Nada mais poderia impedi-lo. Jogou fora o celular, as roupas, tudo que lembrasse que ele era ele, até o próprio corpo. Nunca havia juntado um sentimento tão grande de liberdade, e o contraditório é que, como nunca, sentia-se ele mesmo. Ainda não escolheu destino, talvez a mente de uma criança por perto, ou uma ave distante pra conhecer novas formas de vida. O que importa é partir logo. Um pouco de concentração, novas idéias, whisky na bagagem para qualquer emergência. Há anos ele estava tentando tirar férias dele mesmo.

***

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domingo, maio 20, 2007

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos – II


A cidade era pequena, mas o verão se vestia de grande. Desconhecida, nem violência escutara seu nome. O colégio, generoso, tinha amizade boa com surpresa, mais do que com o próprio ensino. É você o menino que escreve?

Os olhos em tropeço, recusando o desafio dos olhos dela, dedos apertando os livros para se livrar das mãos. O pátio em ventania de recreio salvava o silêncio. Ele não acreditava. Ela tinha curiosidade. A notícia das redações de classe tinha chegado à Quarta série.

No início, a poesia fazia o assunto da amizade, depois, a amizade se lambuzava pelos corredores e mal cabia em poesia. Descobriram que eram vizinhos de rua, bastavam duas quadras. Em pouco tempo, viraram também vizinhos de alguma outra coisa intima deles. Mas disso ninguém sabia.

Nas férias, as tardes levavam as crianças pra brincar e depois, exaustas, adormeciam em baixo da noite. O dia não era vigiado pelo relógio, por isso não tinha pressa de ir embora. Ele gostava da praça da Igreja, no alto. Dava pra ver a casa dela. Escrevia-lhe em bilhetes os sorrisos recém-nascidos pela manhã, mãos dos guris serviam correios. Ponderava a brincadeira e paixão, um olho na pipa, o outro ansioso investigava as pistas das respostas, os méritos e aparições. Daí, chegavam poemas em abraços, versos-olhos soprados nas beiradas das ruas – bem pequenos pra que ninguém notasse, - ao escurecer, telefonemas. E as paisagens exclusivamente femininas, ilustradas atrás da voz da ligação. O resto do mundo quase não fazia diferença.

Antes do sono, costurava com lápis acontecimentos na cabeceira. Reeditava episódios, imenso dele mesmo, formatava em letras rabiscadas, trancava tudo no quarto. Mãe insistia na janta. Cauteloso, carregava trechos no bolso, as palavras na ponta da língua. Quando a retribuição vinha forte, encorajava a mão direita a cantar a dela. A esquerda, com medo, se encolhia em aviso. Incerto, corria para longe de si mesmo, mas deixava os ouvidos fazendo companhia. Ela achava que ele fechava os olhos pra imaginar. Criaram o talento de ir para mundos irreais, às vezes, mesmo sem notar, faziam um pouco de esforço e iam. E ninguém era capaz de trazê-los. O tempo, rendido, esperava.

Por alguns anos, ele mesmo esboçou uma eternidade com as letras. No quarto, esboçou as histórias, as ruas, as esquinas. Até que finalmente deixou borrar toda sua obra-prima em lágrimas, quando desiludiram sua inspiração. A família dela ia pra cidade maior, restavam as férias como despedida. Pousou duas fitas que abanavam os cabelos em suas mãos. Eu volto, desejou. E foi de vez, do lugar escondido pela própria geografia. As fitas eram pra não esquecer dela.

O quarto engasgado. O colégio esvaziando de gente, a cidade silenciando seu nome, e os vestígios dela sendo pouco a pouco arrastados pelos ventos nos lugares prediletos. Só não arrastaram os recados gravados em caneta vermelha acenando no caderno. As mensagens nas nuvens zombando distâncias, as fitas descolorindo na prateleira do quarto, e os telefonemas ocasionais, moinhos de ausências. Você lembra que eu te chamava de meu poeta? Eles nunca puderam confessar que se amavam.


Fernando Palma, Dezembro de 2007

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sábado, maio 12, 2007

Baseado em Personagens Reais - I


Há anos ela está escondida nela mesma. Como quem estivesse vestindo agasalhos, um por cima do outro. E óculos de sol, chapéu, calças, luvas, capas de chuva até os pés, botas acovardando as canelas. Ela mal pode ser vista. O tempo corre em volta dela, e seus gestos e expressões presos na muralha já não a traduzem como antes, apenas avisam que há alguém ali. As vezes, eu a provocava com histórias antigas, tentando lhe arrancar pra fora, mas respondia com um personagem tão estranho no olhar que me fazia sorrir de medo. Então, mantenho esse meu eterno papel amigo-paterno de desvendá-la mesmo sem ser este o meu papel. Aperto os olhos, forço poder de ver atrás dos casacos, das mascaras acostumadas, luvas de frio-psicológico, capas pretas. Melhor, escuras. O corpo preso, colado, acomodado ao meio, a visão se confundindo nas lentes opacas. Ninguém nem lembra mais a cor de seus olhos. Ela está escondida em si há tanto tempo, que há quem pense que é uma pessoa infeliz. Mas não é. Está apenas afastada da felicidade por um tempo, de férias. Economizando. Guardando o melhor dela mesma, e observando atenta, e esperando, preparando, ansiosa, determinada. Uma determinação tristemente incrível. Ela está escondida em si, e aguarda por uma oportunidade, um sonho, um lugar, um momento. Um alguma-coisa-que-acontecerá que ela sabe que tem direito, mesmo sem saber o que. Um alguém, mesmo sem saber quem é.

Fernando Palma, Maio de 2007 

Ps: Participação - correções e critica - da querida amiga Deniela Bridges.

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domingo, maio 06, 2007

Cotidiano - I


http://populo.weblog.com.pt/arquivo/casa1024.jpg

Acordou as nove, mas não olhou que horas eram. Vestiu o agasalho estendido na cadeira, nem fazia frio. Fez café sabendo que não iria tomá-lo, ninguém iria tomá-lo. Apenas fez.


Correu a casa verificando o silêncio, uma paz indesejada, cumprimentou as paisagens que pulavam pelas janelas.


Saiu à praça para encontrar com algumas árvores, vigiava as folhas e os sapatos das pessoas, atravessava o tempo com a imaginação. Caminhou pela calçada, passou pelo o lago, passou pelo o lago, caminhou pela calçada. O quarteirão de tão pequeno parecia sufocá-lo.



Os vizinhos roubavam-lhe de sua privacidade. Atrapalhavam sua tristeza. Permaneceu incolor, atrás dos óculos. Tropeçava em vozes, editava histórias que escutava nas esquinas. Aquele lugar é próprio à história alheia.


O vento o ajudava a caminhar, seguia com pouca pressa. Nem se preocupou em olhar para os dois lados ao atravessar a rua. O mundo só atropela o que está em evidência.


Visitou bares e copos de cerveja. Tomava uma garrafa a cada parada, exatamente uma garrafa, nada mais consumia. Voltou pelo mesmo trajeto, pouco antes das seis. Não conseguiria suportar o peso da noite.


Deixou o portão entreaberto, a espera de ventos.


Preparou o jantar, comeu apenas o suficiente, dispensou o banho. Deitou no sofá para escapar da cama vazia. Adormeceu antes que o próprio sono.


Fernando Palma

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segunda-feira, abril 16, 2007

Eu, você sem luz

"Vieste aqui para julgar minha imagem, a qual assemelha-se a repetição de tua figura sobre a face da terra. A quilometragem já não marco mais, sou tão jovem quanto és. Interpreto-te pela vida, sou artista... Sou sim, um protagonista-coadjuvante. Faço o que fazes e faço brilhantemente. Disseste que não possuo cor, que me perco em meio a escuridão. Sou um filho da luz, sou herdeiro do sol. Venho de onde não imaginas e lá estou. Sou a escuridão de tua imagem num dia de luz e, assim, acompanharei a ti pelo resto de teus dias.
Eternamente, tua sombra."


Texto de Danilo Lima que gostei muito.

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