sexta-feira, abril 15, 2011

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos - I





“E depois?” “As estrelas.” “E depois das estrelas?“ “As estrelas das estrelas...” “E depois?” Risos. “Ah, não sei. Vira pra cá, vai... Você me deixa escrever seu rosto?” “E como é isso de escrever um rosto hein?” “É o mesmo que desenhar. Só que por dentro.”


Fernando Palma









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quinta-feira, março 24, 2011

Abraço

Texto originalmente escrito em 04/09/05






É que a melhor forma que encontrei de receber abraços foi os dando.
É preciso acreditar em abraços para que eles realmente existam em sua vida. É preciso acreditar neles para enxergá-los. É preciso enxergar não só os abraços compostos de braços mas também os abraços de palavras. É preciso aprender também a enxergar os abraços em silêncio. Com tempo você descobre como abraçar, embora algumas pessoas simplesmente não aprendam. Se uma pessoa não te abraça da maneira que você espera não significa que ela não esteja te abraçando. Abraço também requer habilidade. É preciso ensinar a abraçar para ser abraçado. É importante aprender diversas maneiras de abraçar quem você gosta. Fica muito mais divertido. Até que chegue o momento que se permita implementar um forte abraço com os braços mesmo.


Todo dia alguém tenta te abraçar e você nem percebe.




Fernando Palma





Ps: Este texto é uma homenagem a amiga Princess. E é , também, um abraço.


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sábado, fevereiro 26, 2011

Amores e Sonhos em Liquidação



I

Não tenho talento para negociar. Não aprendo nunca. Prometo-me ser firme, cobrar mais da próxima vez, exigir algo justo, que valha a pena. Mas chegando o momento, acabo sendo flexível, como sempre. Já desisti de tentar me valorizar. O meu amor é amostra grátis.

***


II
“É que meus sonhos têm juros muito altos, sabe?”

“Sei como é. O sonho não para nuca de crescer, crescer...”


“Não é bem isso. É que toda vez que finalmente posso pagar o preço, já ficou mais caro.”

***


III
Desconfio desses amores baratos que estão à venda por ai nas esquinas, nos bares, no trabalho, não perco meu tempo nisso. Juram que é verdadeiro, mas estragam nos primeiros meses de uso, às vezes nem chegam a funcionar. Por isso que eu estou economizando, juntando, paciente, guardando para investir. Ai você vai ver. Eu vou ter um do bom pra mim. Do melhor.

***



IV
Vendo um sonho não realizado com dez anos de uso. Acompanha três moedas especiais para lago do desejo, sete fitinhas do senhor do Bonfim e um trevo de quatro folhas. Aceito troca em qualquer realidade concreta em bom estado.

***



V
“Tem mais daquele sentimento bom de ontem ai?”

“Esqueça, já esgotou”.








//texto publicado em Julho de 2007






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quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Verdade

"gosto de indiretas, entrelinhas e subtextos.
a verdade não é explícita."


Eduardo Baszczyn

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sábado, maio 29, 2010

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

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domingo, maio 02, 2010

Danii III





Como um asa-delta que atravessa uma corrente ruim e ao despencar surpreende-se com um vento forte, divino, no sentido contrário. O vento oposto, firme, que nos faz subir novamente e triunfar após pensar em aterrissar. Voar para sempre, triunfo eterno, a garantia, a esperança. Como o peso do elevador que sustenta a subida, evita que você caia e se machuque. Como a carga negativa que  é repelida pela positiva, a balança que se posiciona no centro graças a fidelidade graciosa dos dois lados. A união, combinação feliz. O verão acalmando as chuvas, o vento que alisa o fim da tarde aliviando o calor que quase nos mata. A melodia chamando para dançar depois de muito, muito tempo de silêncio. O milagre da perfeição natural, do equilíbrio. Porto Seguro. 


Você é o vento que sopra e garante o meu vôo. É o meu ponto de equilíbrio.  



Fernando Palma




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quarta-feira, novembro 11, 2009

Vanessa Bencz

Relato de um sol eterno


A primeira pessoa que vejo, ao abrir os olhos pela manhã, é a minha irmã mais velha. Dividimos o mesmo quarto há 23 anos. Ela dorme na cama à minha direita, como se fosse meu braço direito, meu leste. Ela me amanhece.
Em pequena, eu tinha dificuldades para pronunciar seu nome. Me acostumei a chamá-la por uma simples sílaba: Di. Só eu a chamo assim, ela só atende ao apelido quando é dito pela minha voz. A alcunha necessita de tom musical, carga emocional e um riso no canto da boca que apenas eu sei dar.
Di é dois anos mais velha que eu. Quando eu tinha seis anos, minha tia fez para mim a fatídica previsão que os parentes sempre fazem para adivinhar as crianças da família:
- Essa menina vai dar baixinha. Sua irmã mais velha, não. Vai dar moça alta, de pernas compridas.
Escondi-me ainda mais na baixa estatura e na franja loira. Di era criança alta, bonita e precoce. Criança irreal de filme estrangeiro. Criança que sabe conversar sobre a previsão do tempo, o governo Collor e a queda da bolsa de valores. E eu mal sabia soletrar meu próprio nome. Tinha dificuldades com a letra s.
Tornei-me uma pré-adolescente tímida e egoísta. A lição de solidariedade veio pela minha irmã. Certa vez, no colégio, meus colegas riam de mim por um motivo que não lembro mais. Di chegou, fez um sermão com dedo em riste, e as crianças se calaram. Exceto por um menino gorducho e feioso, que teimava em continuar rindo. Di deu-lhe quatro murros na orelha, e o moleque se calara. Tempos depois, eu faria o mesmo pelo meu irmão mais novo.
No começo da fase adulta, Di precisou fazer uma cirurgia de emergência. Fui visitá-la no hospital e, ao vê-la na cadeira de rodas, desabei num choro frenético e desmaiei de pressão baixa. Saímos juntas do hospital, cada uma em sua cadeira de rodas.
Hoje em dia, Di e eu temos a mesma altura. Nós somos o mesmo território vasto de lembranças. Nossos sonhos se misturam de noite e nossa telepatia se entrecruza durante o dia. Di me amanhece.


Vanessa Bencz 

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sábado, outubro 31, 2009

É festa no céu

















Se alguém seria feliz para sempre, então para que precisaria de um anjo da guarda? Não parecia lógico, mesmo assim estava decidido: o menor dos anjos seria o representante celeste daquela futura menina, quando pousasse a graça de sua existência fenomenal na Terra. 

A experiência era já expectativa há alguns anos-luz, como um trabalho que leva tempo para estudos e requer planejamento para funcionar. Como uma tese de doutorado. Muita conversa em baixo de arco-íris e escorregadeiras, acompanhados de pacotes de jujubas, chocolates e pés-de-moleque para espantar a fome. Mas chegara ao fim. Finalmente, pela primeira vez, traria o destino a um ser humano a missão de  representar a alegria como o único sentimento durante todo o tempo de passagem no mundo onde a não-alegria predomina. Uma verdadeira obra de arte celestial.

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segunda-feira, outubro 26, 2009

Rascunhos


Desenhei palavras vazias. Corri três rascunhos, parei ofegante. Revisei imaginação, aparei as pontas dos dedos, fiquei tentado encontrar uma maneira de emendar poemas.
Tomei estrada, dirigi textos sem rumo, além do horizonte de dentro de mim. Apertei acelerador, atropelei uma saudade que atravessava a rua. Passei para visitar um rascunho antigo, a casa tava imunda. 
Notei um poema semeando na mão direita, animei a esquerda, curvei as costas dos braços, puxei o teclado tentando fazer germinar. Rabisquei um grito, confundi o inicio, briguei com a segunda estrofe, apanhei de uma antítese, sai para procurar uma analogia melhor. Irritado, memorizei a origem da inspiração para saber exatamente onde não voltar a consultar. 
Tentei hidratar algumas idéias secas guardadas na gaveta, procurei por palavras potáveis. Caminhei em círculos por versos, fiquei tonto, mas não parei. Senti fome, fritei alguns pastéis em Mario Quintana.
Falei a um amigo sobre aquela questão emendar poemas, ele sorriu e mudou de prosa - notei algumas ameaças metafóricas cintilando no enredo da conversa dele, mas não acho que ele tenha percebido. 
Voltei para as palavras vazias. Reli o esboço, inverti o inicio, assassinei dois pensamentos covardes, motivei paradoxos, entortei as linhas, escorreguei na terceira estrofe, colidi na conclusão, bruscamente. Quase um acidente fatal. Fui sentindo uma certa falta de organização, desordem de idéias, mudança de ritmo. Uma bagunça.
Comecei a gostar.


Fernando Palma


Ps:Escrito em Outubro de 2006
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domingo, outubro 25, 2009

Baseado em Personagens Reais - III





No princípio, não gostava muito dele, depois, foram me convencendo aos poucos com a idéia. Era um amigo comum a todos, mas ele sabia também ser vários, então cada um tinha um amigo diferente. Não sabia jogar bola, mas era craque em imaginar brincadeiras. Quando por qualquer instante eu ficava só, ele vinha cheio de idéias. Acabamos criando uma amizade estável. Muitas vezes, brincava horas com ele sem dizer uma palavra. Acho que isso ensinou sobre amizade. 

Ninguém sabe exatamente até quando ele permaneceu, ou quem foi o ultimo a vê-lo. Sei que da ultima vez que tocamos em seu nome estávamos reunidos no colégio, já bem crescidos, adolescentes, rindo, imaginando, como seria. Se o ele tivesse sido uma pessoa real. 


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terça-feira, outubro 20, 2009

A História do Poeta Bom-De-Briga.



Escolheu a palavra como defesa pessoal. Aprendeu a dar os primeiros golpes ainda na infância, usando seus cadernos-sacos-de-pancada, guardados no ringue secreto do quarto. Criou a mais complexa arte das imobilizações metafóricas, inspirações herdadas por ascendência familiar, nomes consagrados. Nunca fazia demonstrações em publico, mas era conhecido em todos lugares pelas habilidades quase sobre-humanas de violência textual. Intocável, seguia com esmero de si palavreando risos, mas deixava sempre caneta afiada nas pontas dos dedos, arma nobre disposta a qualquer imprevisto poético ou até mesmo para o cotidiano. Derrubou a dor a pancadas paradoxais, matou friamente o medo da reprovação-poética com agressões metalingüísticas. Desafiou os mais temidos inimigos pessoais e ante-literários. Quando vieram as paixões escolheu os versos, quando a solidão, a prosa.

Um dia, tentou fazer um pouco de silêncio e foi assassinado.





 Escrito em Setembro de 2006






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domingo, outubro 18, 2009

O Ministério da Saúde Adverte: ame com moderação. O consumo excessivo pode causar danos irreparáveis.









I



“E amanhã...

Vou querer mais.

E depois de amanhã

mais .

E depois

mais.

E mais...


E você?”



“Perdoe-me,

mas é que eu só amo de vez em quando.

Não sou viciado.”



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quinta-feira, outubro 15, 2009

Danii - II





Não projete demais, não calcule, apenas fique por perto. Não hesite. Nem por três milésimos. Pense por três segundos: o que representam três anos? De onde vem a matemática do amor? Não há números em nossos encontros, Danii, apenas versos. Escrever para você é como imitar um poema já composto. É como copiar nossa própria poesia. E depois, esperar para saber se você achou que eu fiz parecido. Hoje, só desejo isso, que leia e se mantenha por perto. Não calcule, não tenha medo, simplifique. A simplicidade é a perfeição dos apaixonados. A perfeição é uma apaixonada pela simplicidade. Danii, o que nossos atos erram, a natureza se ocupa em reparar. Nunca se esqueça. Quando nos dizemos as palavras erradas, ainda assim, nos dizemos as palavras certas. Quando nos dizemos as palavras certas, é como nos dizer o absoluto, como adivinhar o pensamento, o futuro, como a felicidade de uma criança, "o paraíso". Dizer as palavras certas é como escrever algo inatingível, perfeição inalcançável. É quase um silêncio.


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domingo, outubro 11, 2009

O Paraíso



O dia amanhece escutando música. Ele mal conseguiu dormir, mesmo assim acorda renovado, como nunca antes. Ela finge que não dá bola, mas deixa escapar  o riso que não conseguiu disfarçar quando ele chegou perto. Eles se protegem, mas se denunciam. Mas não é o tipo de denuncia que condena ou aprisiona, ao contrário: liberta. Se ela sente o mesmo, ainda é uma dúvida, ele calcula. Alguns podem dizer, mas será dúvida. E mais sincero assim: na incerteza. Eles nunca irão adivinhar. Ele pode lhe dizer algo em um mometo-qualquer-semi-planejado, ela percebe. Mas não liga se não disser nada, contenta-se com a espera. Eles consentem. Os minutos não passam, o filme que muda de cena. Ela volta nos melhores momentos: a canção. A vida não acaba, apenas a história. O telespectador não cansa de repetir.



Se eu pudesse escolher para onde ir depois da morte, me transformaria em uma trilha sonora, me enviaria para o cinema, num destes filmes juvenis, onde a conquista é a maior preocupação da existência, a felicidade é besta, a repetição agrada, o choro é mais belo do que triste, os personagens permanecem jovens para sempre. E se um por algum motivo, um dia, por um incidente, sentisse que a história acabou, simplesmente voltaria para o início, e faria tudo acontecer novamente. O paraíso é  um eterno filme de paixão adolescente. 



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quinta-feira, outubro 08, 2009

O Hospedeiro – Biografia Resumida

Para Marcelo Cantalice
















Nasci nas ruas de pensamentos solitários. Não tinha sentimento para morar. Fui explorado por medos que me aprisionaram distante de onde eu era. Desisti de me libertar por muito tempo, até que um dia tentei. Fugi, e por não saber para onde ir, morei na própria ida. Falido, vivia em personalidades de aluguel, das mais baratas que encontrava. Cheguei a erros que me furtaram algumas esperanças que economizei desde cedo. Cheguei ao passado disfarçado de futuro. Cheguei a paixões que nem sempre chegaram a mim. Sem saída, cheguei à tristeza. Mas minha tristeza nunca soube me acolher. Cheguei a sonhos, depois à insegurança. Depois a sonhos. Voltei, encorajei, passava por contradições na ida-volta-e-não-ida. Guardei o endereço de algumas palavras que fiz amizade no caminho, mas nunca encontrei as verdadeiras palavras que me inventaram.

Hoje, superei meu abandono e transformei-me em uma re-invenção de mim. Não procuro mais onde viver, realizei meu sonho: sou casa própria. Estou sempre em obras e aberto a visitas. Uma moradia sólida, espaçosa e um hospedeiro insaciável: abrigo mais do que fui capaz de ser.

Sou muito mais do que já fui capaz de abrigar.

Fernando Palma, Junho de 2007

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sábado, setembro 05, 2009

Latas

Como uma antiga coleção de latas. Numerosa. Refrigerantes, cervejas importadas, fertilizando a ambição ainda juvenil. Organizadas, compartilhando o pedaço de conquista, a lata rara, diferente, esmero em cada uma no superior da coleção. O brilho. O anseio de acumular sem razão, aglomerar, colecionar sem haver fim premeditado: ao contrário do álbum de figurinhas, onde a ultima sempre limita o objetivo do colecionador, como se a conquista atingisse limite de tamanho máximo. A coleção sem regra, sem número, latas, ninguém sabe ao certo quantas estão na prateleira, muito menos a quantas chegar. Apenas estão, cada dia expandidas, numerosas, orgulhadas. E por um momento, se a janela está aberta demais, um esbarro mais forte na estante velha, ou uma lata é retirada de baixo, um descuido, um instante, e todas vão ao chão, espalhadas, feridas. O ruído que silencia. A pausa.

Sou como uma velha coleção de Latas: se me desarrumam, sei exatamente como me re-organizar. Mas dá trabalho.



Fernando Palma, Setembro de 2009





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sábado, junho 16, 2007

Baseado em Personagens Reais - II

Era um homem dedicado ao destino, fiel, comprometido com a dor. Perdeu a esposa aos quarenta e chorou para sempre. Fim de ano, os filhos traziam alguns presentes para pausar sua melancolia. Depois, rendidos, iam embora carregando consigo a própria saudade. No trabalho, discutia a todo tempo com a solidão, de maneira impiedosa. E ela escutava tudo, sem reclamar. Até que finalmente ele e a solidão saiam para aliviar a relação no boteco. E quando a tarde enfraquecia, voltavam os dois abraçados em embriaguez pelo caminho de casa. Já iam mais de três anos, me peguei bem próximo e não resisti, perguntei se não restava nada. Ele cutucou com os dedos a memória de forma semi-engraçada e foi a única vez que nasceu algo desse sujeito que me fez rir. Respondeu que havia uma esperança num lugar intocável, bem guardada. Tão bem guardada que provavelmente já esquecera onde pôs, deduzi, juntando um pouco de compaixão. Não lembro qualquer outra prosa. Lembro que tinha lá sua postura mais ou menos elegante de curvar o corpo ao caminhar. E reconheço que cultivei uma certa admiração por sua sabedoria individual. Individual porque era sábio consigo, mas os outros pouco percebiam. Ele tinha a inteligência de enganar seu próprio desespero com uma tranqüilidade misteriosa que nascia em volta das rugas dos olhos e ia até os dedos, esticados, em sono profundo. 

Lembro também de tê-lo visto um pouco antes da notícia, sentado numa esquina, se exibindo para a timidez. O copo de cerveja sempre de mãos dadas com ele. Nada mais posso narrar sobre o momento, é uma pena. Na verdade, a vida já o tinha deixado há muito tempo, o tempo que se atrasou em pedir que a morte viesse ocupá-lo.

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sexta-feira, junho 08, 2007

Pedaços de Histórias - I


O Bolo
Rompeu com a covardia. Procurou a coragem. Marcou encontro, dia, horário, lugar. Finalmente iria conquistá-la. Como sempre sonhou.
Mas a coragem faltou.

***


Descanso
Nada mais poderia impedi-lo. Jogou fora o celular, as roupas, tudo que lembrasse que ele era ele, até o próprio corpo. Nunca havia juntado um sentimento tão grande de liberdade, e o contraditório é que, como nunca, sentia-se ele mesmo. Ainda não escolheu destino, talvez a mente de uma criança por perto, ou uma ave distante pra conhecer novas formas de vida. O que importa é partir logo. Um pouco de concentração, novas idéias, whisky na bagagem para qualquer emergência. Há anos ele estava tentando tirar férias dele mesmo.

***

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sábado, maio 12, 2007

Baseado em Personagens Reais - I


Há anos ela está escondida nela mesma. Como quem estivesse vestindo agasalhos, um por cima do outro. E óculos de sol, chapéu, calças, luvas, capas de chuva até os pés, botas acovardando as canelas. Ela mal pode ser vista. O tempo corre em volta dela, e seus gestos e expressões presos na muralha já não a traduzem como antes, apenas avisam que há alguém ali. As vezes, eu a provocava com histórias antigas, tentando lhe arrancar pra fora, mas respondia com um personagem tão estranho no olhar que me fazia sorrir de medo. Então, mantenho esse meu eterno papel amigo-paterno de desvendá-la mesmo sem ser este o meu papel. Aperto os olhos, forço poder de ver atrás dos casacos, das mascaras acostumadas, luvas de frio-psicológico, capas pretas. Melhor, escuras. O corpo preso, colado, acomodado ao meio, a visão se confundindo nas lentes opacas. Ninguém nem lembra mais a cor de seus olhos. Ela está escondida em si há tanto tempo, que há quem pense que é uma pessoa infeliz. Mas não é. Está apenas afastada da felicidade por um tempo, de férias. Economizando. Guardando o melhor dela mesma, e observando atenta, e esperando, preparando, ansiosa, determinada. Uma determinação tristemente incrível. Ela está escondida em si, e aguarda por uma oportunidade, um sonho, um lugar, um momento. Um alguma-coisa-que-acontecerá que ela sabe que tem direito, mesmo sem saber o que. Um alguém, mesmo sem saber quem é.

Fernando Palma, Maio de 2007 

Ps: Participação - correções e critica - da querida amiga Deniela Bridges.

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segunda-feira, abril 16, 2007

Eu, você sem luz

"Vieste aqui para julgar minha imagem, a qual assemelha-se a repetição de tua figura sobre a face da terra. A quilometragem já não marco mais, sou tão jovem quanto és. Interpreto-te pela vida, sou artista... Sou sim, um protagonista-coadjuvante. Faço o que fazes e faço brilhantemente. Disseste que não possuo cor, que me perco em meio a escuridão. Sou um filho da luz, sou herdeiro do sol. Venho de onde não imaginas e lá estou. Sou a escuridão de tua imagem num dia de luz e, assim, acompanharei a ti pelo resto de teus dias.
Eternamente, tua sombra."


Texto de Danilo Lima que gostei muito.

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