sexta-feira, maio 06, 2011

Pequenos Poemas - IV



Perfil - I



Ela derrota a felicidade pelo cansaço.

Confunde desejo com pecado,
alegria com loucura.

Erra consigo para não errar com os outros.
Culpa os outros
por errar consigo.

Sonha acordada,
se acorda sonhando.

Não acredita em expectativas,
ilusões.
Não acredita em destino,
compromisso.

Olha para os dois lados antes de atravessar suas vontades.

Refuga.
Não decide, pede opinião.

Fecha a porta de sua alma todos os dias,
no mesmo horário.
Espia pelo buraco da fechadura.

Abre a janela,
se esconde atrás da cortina.
Sorri na sala,
chora no quarto.

Deseja chances que já tem.
Teme impedimentos que não tem.
Ignora a saída, esquece onde entrou.

Não se entrega ao amor,
espera que o amor a tome.

A noite, usa a coberta como quem veste um escudo.


Fernando Palma

PS: Texto antigo transformado em Poema.

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sábado, junho 16, 2007

Baseado em Personagens Reais - II

Era um homem dedicado ao destino, fiel, comprometido com a dor. Perdeu a esposa aos quarenta e chorou para sempre. Fim de ano, os filhos traziam alguns presentes para pausar sua melancolia. Depois, rendidos, iam embora carregando consigo a própria saudade. No trabalho, discutia a todo tempo com a solidão, de maneira impiedosa. E ela escutava tudo, sem reclamar. Até que finalmente ele e a solidão saiam para aliviar a relação no boteco. E quando a tarde enfraquecia, voltavam os dois abraçados em embriaguez pelo caminho de casa. Já iam mais de três anos, me peguei bem próximo e não resisti, perguntei se não restava nada. Ele cutucou com os dedos a memória de forma semi-engraçada e foi a única vez que nasceu algo desse sujeito que me fez rir. Respondeu que havia uma esperança num lugar intocável, bem guardada. Tão bem guardada que provavelmente já esquecera onde pôs, deduzi, juntando um pouco de compaixão. Não lembro qualquer outra prosa. Lembro que tinha lá sua postura mais ou menos elegante de curvar o corpo ao caminhar. E reconheço que cultivei uma certa admiração por sua sabedoria individual. Individual porque era sábio consigo, mas os outros pouco percebiam. Ele tinha a inteligência de enganar seu próprio desespero com uma tranqüilidade misteriosa que nascia em volta das rugas dos olhos e ia até os dedos, esticados, em sono profundo. 

Lembro também de tê-lo visto um pouco antes da notícia, sentado numa esquina, se exibindo para a timidez. O copo de cerveja sempre de mãos dadas com ele. Nada mais posso narrar sobre o momento, é uma pena. Na verdade, a vida já o tinha deixado há muito tempo, o tempo que se atrasou em pedir que a morte viesse ocupá-lo.

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sexta-feira, setembro 29, 2006

Perfil - III

Acalma os dias com uma voz de rio escorrendo. Acorda atrasado para o descanso. Desperta a preguiça, traga as primeiras incertezas ainda cedo, boceja o banho. Deixa o café lhe absorver. Caminha tentando escapar do movimento, desvia dos passos, plagia a própria sombra. Não consulta o relógio, é mais lento que o tempo. Exercita o sedentarismo pela manhã com a agilidade de um veleiro, cansa horas sem correr. Conversa calado com o silêncio, sempre o mesmo assunto. Prevê a solidão, engana o imprevisto. Antecipa indecisões para não ter que omitir a decisão de ultimo momento. Anda pelo acostamento para que a velocidade o deixe pra trás. Repete histórias de vida aos amigos, sem notar que a vida o repete. Resiste à oportunidade, escreve torto em caminhos certos. Trabalha como quem distrai as horas. E sua hora significa o mesmo que um minuto, segundo ou dia, qualquer tempo é semelhante. Distrai-se como quem cuida do trabalho. Segue dieta de acontecimentos, porções leves de indiferença divididas em ações de baixa caloria. O comodismo é seu nutricionista. Tem pesadelos com as mais assombrosas mudanças todas as noites, corre para a cama dos medos velhos. Dizem que seu passado pode ser escrito em três páginas. E seu passado é uma copia do presente, imitação do futuro. É fiel a copia, cultiva igualdade com talento de artista consagrado.

É prisioneiro do banal por vontade própria. Economiza na vida para subornar a morte.

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sexta-feira, outubro 28, 2005

Perfil - II

Ele tem compromisso com seu descaso. Desde cedo, aprendeu a desconhecer seus caminhos. Leva diversão a sério, brinca com assunto importante. Não segue receitas, escolhe ingredientes. Invade suas vontades pela contramão, estaciona em desejo proibido, segue adiante em beco sem saída. Ensina aos mais velhos, aprende com os jovens. Muda quando quer ser o mesmo, continua o mesmo pra mudar. Discute calado, fala alto quando está tranqüilo.CLIQUE PARA LER O TEXTO COMPLETO>>

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terça-feira, outubro 18, 2005

Perfil - I

Ela derrota a felicidade pelo cansaço. Confunde desejo com pecado. Alegria com loucura. Erra consigo para não errar com os outros. Culpa aos outros por errar consigo. Sonha acordada, se acorda sonhando. Não acredita em expectativas, ilusões. Não acredita em destino, compromisso. Olha pros dois lados antes de atravessar suas vontades. Refuga. Não decide, pede opinião. Fecha a porta de sua alma todos os dias, no mesmo horário. Espia pelo buraco da fechadura. Abre a janela, se esconde atrás da cortina. Sorri na sala, chora no quarto. Deseja chances que já tem. Teme impedimentos que não tem. Ignora a saída, esquece onde entrou. Não se entrega ao amor, espera que o amor a tome.

À noite, usa a coberta como quem veste um escudo.

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