terça-feira, junho 14, 2005

A Solidão - I

"É estranho, Fernandinho. Uma sensação física no peito, forte. Parece quando você está apaixonado, só que é um pouco mais escura"

Ps:Um amigo me disse

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domingo, junho 12, 2005

Em uma dessas noites - III

Tinham roubado o seu carro. Puta que pariu.
Estava bêbado demais para lembrar a vaga exata, isso é verdade, mas pela terceira vez que percorrera a toda fila do estacionamento não restava dúvidas. Os guardadores, idiotas, ainda estavam cobrando os cinco reais que acham que tem direito sob as pessoas que deixaram seus veículos no mesmo lugar. Irritadíssimo, se voltou para as costas de um deles e bateu. O murro meio desajeitado pela bebedeira chamou a atenção de todos os outros guardadores que partiram para a briga . Sem se deixar inibir, foi golpeando-os e deixando escapar os insultos:
-Filhos da puta! Roubaram meu carro!
Foi quando um deles tirou uma garrafa partida ao meio e o encarou :
-Vem que eu te furo, vem!
Foi o bastante para Juca dar as costas e num ritmo lento, sem demonstrar medo, voltar para a porta da boate. Se não fosse aquela garrafa, ele ia ver só, pensava consigo. Foi discando o número do pai sucessivas vezes sem que isso interrompesse a caminhada. Ninguém atendia à chamada, talvez porque estava no toque silencioso ou então era mesmo a distorção de sua visão que não o deixava discar o número correto. Não podia ter certeza.
Havia poucas pessoas na porta, às seis da manhã só mesmo a galera do bagaço permanecia lá dentro. Mas foi quando viu o jovem tão bêbado quanto a si saindo meio escorado na porta lateral:
-Chico, Chico! Preciso de ajuda velho!
-O que houve Juca!? Você ta sangrando – Dizia , já deixando com que o susto amenizasse um pouco seu estado de embriaguez.
-Meu carro cara, roubaram! Me leva para casa. - A resposta não foi bem esclarecedora para o fato do colega estar ferido no rosto, mas preferiu não alimentar o assunto .
-Ok! Mas estou sem carro também, precisamos de um táxi – No mesmo momento já olhava se antecipando a busca de algum por perto.
Escorados um no outro, seguiam em meio a rua sem noção de onde conseguir um táxi aquele horário. A vítima do roubo ainda tentava parar, meio que à força alguns que passavam na avenida, mas nenhum deles estava livre. Ou se estavam, talvez temesses à aparência daquele jovem cheio de sangue e agressividade no chamado
-Para porraaa!
Chico ainda viu um carro de conhecidos passar, mas resolveu não pedir ajuda, da mesma forma que os mesmos também não se ofereceram para ajudar. Ao voltar sua atenção para o colega, foi tamanha surpresa notar que ele havia parado um ônibus e já subia as escadas sem dar aviso prévio. O que pensa que está fazendo? Nunca tomou ônibus na vida...
-Volta aqui Juca! – E assim foi subindo meio sem saber o que fazer com o colega louco-varrido num ônibus cuja direção ainda iria descobrir no caminho. Enquanto tentava se levantar da queda que tomara logo na entrada Juca parecia querer dar ordens ao motorista:
-Esquerda! Esquerda! – Talvez sua bebedeira foi tamanha que ele achava que estava finalmente dentro de um táxi. Só que o cobrador fazia expressão de quem não estava gostando nada da confusão logo no começo de seu expediente.
-Velho, melhor agente descer. Lá embaixo resolvemos. -Dizia para tentar sair o mais depressa daquela situação constrangedora.
Saltaram em algum lugar na Pituba, só que ainda distante da casa do Juca.
-Você não tem alguém que possa te buscar aqui ? – Perguntou Chico segurando-o firme, pois parecia querer cair a qualquer momento.
Em resposta apenas estendeu a mão com o aparelho celular repetindo varias vezes com a voz já bem embolada:
Lig..a pro Thiagggo!
Passou a seu ouvido o telefone quando notou que alguém tinha atendido. E em uma só frase ele resumiu a ligação:
-Thiaguinnnho...Me pegue no Empório Itaigara. Rolou um merda aqui!
Sem precisar esperar para saber mais detalhes o amigo saiu com pressa de si imaginando o que teria se passado desta vez. Como ele pode ainda hoje, com vinte anos arrumar tantas encrencas quando sai de casa? O caminho não era muito longo, depois de ter mudado para o mesmo bairro do amigo de infância, bastava alguns minutos para chegar em sua casa, e alguns mais para chegar ao Empório, onde agora estava pedindo por socorro.
Chico colocou o colega dentro do carro antes de entrar, cumprimentou o motorista baixinho a quem pouco conhecia, e depois de bem acomodado esperou que a própria vítima do roubo contasse a versão e finalmente explicasse os ematomas em sua face. Mas o que nenhum dos dois tinha notado foi que Juca batera a cabeça na entrada e já adormecia.
-Ele apagou! Thiago, ele apagou!
-Relaxa, deixa dormir. Ta comendo água desde as duas da tarde, emendou com a festa à noite. – A resposta não acalmou muito a ele, que ainda olhava assustado para a cara ensanguentada se perguntando se o colega de faculdade realmente estava bem, mas antes que pudesse se pronunciar novamente foi interrompido pelo baixinho mais uma vez:
-Ah! Quando acordar lembra a ele que o carro dele ta lá em casa.


Pulso

No mesmo lugar
Ela, a mesma
O sorriso o mesmo
Suas mãos seguravam
da mesma forma
Não eram as minhas, desta vez

Você consegue entender?

Um dia, me lembro
Ela
teve medo
Meus braços a contornaram
Num abraço
Com esmero
A acalmando
Hoje, eu tive medo
Quem irá me acalmar ?

Você consegue notar?

Essa inquietação
nas palavras
Estes versos
Num ritmo
Repetidos
Sem rima
Não é prática literária

É o meu coração
Batendo
Em desespero
Partido

Você consegue sentir?

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A casa - I

As grades do portão eram altas, o que a distinguia bem das outras naquele bairro. O formato também tinha um diferencial às casas iguais a qual ele morava, típicas de periferia, com o mesmo quintal de roupas penduradas e com o com mesmo cheiro de feijão cozinhando ao meio-dia. A parede escura relatava um pouco da sua idade, que parecia ser maior do que todo o resto daquela região. A curiosidade de descobrir o interior daquele casebre abandonado multiplicava a cada tarde que passava. Escutara uma vez, de alguns garotos mais velhos, histórias de assombração daquele lugar, o que tirava sua coragem de encará-la quando era noite. Mas assim, em plena tarde de um dia de semana, era apenas uma casa antiga como outra qualquer, e que o deixava intrigado. Passava horas na varanda observando do outro lado da rua, só o que tirava sua concentração era a voz da Ritinha gritando seu nome com olhos lhe fitando em cautela para que não fugisse mais uma vez como em diversas tardes iguais àquela. Thiago não entendia porque causava tanta preocupação em sua babá o interesse de entrar nela: era mesmo abandonada, quem iria reclamar? Ele não gostava nada da maneira que o proibia de fazer as coisas. Ainda mais em uma tarde de Quinta-feira que não havia muito que se fazer para distrair. Se fosse Sexta, talvez já estivesse na casa do novo amigo do colégio, em seu apartamento de bairro nobre, onde passava os finais de semana quando era convidado. Desde aquela nova amizade as tardes de sextas eram bem diferentes do restante da semana, naquele lugar cheio de videogames, brinquedos e piscina no térreo. Juca. Mas agora, só tinha mesmo a companhia da Rita, de qual já estava bem cansado. Não que não gostasse da babá, era sua conhecida desde muito pequeno e por ela já tinha bastante afeição - ainda podia recordar o dia em que foi apresentado pela mãe. A notícia de que seria sua nova companhia depois que chegava do colégio correu uma sensação estranha dentro de si, como se alguém estivesse, de repente, trocando sua mãe por outra. Na verdade, nestes dias que ficava sozinho ainda podia ter um pouco a mesma sensação.
Aproveitou que a Ritinha estava dispersa com o filme de seção-da-tarde e disparou em meio à calçada de paralelepípedos. Da ultima vez que chegara tão perto daquela casa escura tinha passado por baixo da grade por um pequeno espaço que só cabia um menino franzino de sete anos como ele. Mas desta vez o portão estava um pouco mais baixo, impedindo que repetisse o mesmo. Encorajado pela oportunidade deu um salto nada triunfal do alto das grades enferrujadas deixando ferir-lhe o joelho. Tamanho foi seu susto ao ouvir o ruído alto do cão a latir ao seu lado, mas riu consigo mesmo ao perceber que o animal estava na casa vizinha e não teria como lhe fazer mal algum. Contente, seguiu pela varanda empoeirada sabendo que já teria um fato divertido para contar em sua história, mesmo não sabendo ainda para quem a contaria. A porta não lhe dava nenhuma possibilidade de acesso, por isso buscou uma janela lateral, e ficou irritado ao perceber que não tinha estatura suficiente para alcançá-la sem ajuda de algo para subir. Como era ruim ser pequeno, provavelmente qualquer outro colega de sua idade se sairia bem melhor naquela situação, mas ele teve de procurar alguma coisa firme o suficiente que lhe desse segurança para sustentar seu pequeno corpo. Foi então esvaziando um tunél de lixo que tinha pedaços de móveis antigos, que pareciam queimados - o que denunciava que alguém já havia habitado aquele lugar um dia - até torná-lo leve o suficiente para que fosse possível movê-lo, mas foi interrompido pela voz de desespero já tão conhecida:
-Thiaguinho seu moleque, volte agora mesmo!
Obrigado a pular o mesmo portão que lhe criara tanta dificuldade, foi cabisbaixo atravessando de volta à rua em meio aos olhos chuvosos e às reclamações.
À noite era a mãe que gritava em desespero. Da cozinha escutava a sua voz, nada sutil, ao culpar a Rita mais uma vez pela falta de atenção com seu filho. As discussões e as ameaças eram claramente escutadas em todo espaço daquele humilde lar, ou mesmo aos vizinhos.
-Ele está machucado! Deveria ter me ligado!
Mas nada daquela conversa entre as duas abalava sua preocupação. Ficava assistindo a TV ligada no quarto enquanto pensava para dentro de si: será que a mãe lhe iria obrigar tomar banho antes de dormir hoje? O Juca iria lhe convidar nesta Sexta? A casa abandonada era seu maior mistério.

quinta-feira, junho 09, 2005

Em uma dessas noites - II

-Vou pegar duas Brahmas para nós
Juca apenas consentiu movimentando a cabeça. Já era tradição entre ele o amigo. Sempre se oferecia antes para costear as bebedeiras. Sentados na parte interna da loja de conveniência do posto, naquelas mesmas cadeiras que já aprenderam o formato de suas costas, os dois esperavam que o efeito das cervejas animasse o começo de mais uma noite.
-Sabe que eu soube que Bete está com umas amigas novas?
-Amigas de Bete!?! Além de baixinho você é sem juízo! Chega desses esquemas com aquelas meninas chatas. Eu quero novidade! Você às vezes me decepciona Thiaguinho!
A vítima do protesto apenas assistia à manifestação rebelde do amigo . Não se dava mais o trabalho de tentar revidar às grosserias tão comuns vindas dele, já a tomara como costume na relação de melhores-amigos dos dois.
-E então qual é a idéia?
-Me empresta seu celular, o meu está sem créditos.
A ligação era para Cecília, que conheceram na sétima série e que mudara de colégio um ano depois. Juca era sempre o mentor das idéias na relação dos dois, o líder que dava as coordenadas , o contato deles com as garotas. Com o fim da ligação o explicou, como sempre em poucas palavras, a festinha que havia marcado na casa da tal menina com algumas colegas e aproveitava a conversa para manda-lo buscar mais bebidas na prateleira do freezer. “A festa” na realidade, era simplesmente um nome-pretexto, dado à reunião de meninas e rapazes desta faixa de quinze e dezesseis anos como eles, em suas casas. Quando os pais não estavam por perto, é claro.
O táxi andava num ritmo desacelerado, buscando o endereço exato descrito pela colega antiga. A sorte foi que a menina morava no Cidade Jardim, bem próximo ao posto do Itaigara onde estavam. O preço poderia ser negociado a menos de dez reais. Neste tempo de mesadas qualquer trocado gasto fazia falta, a grana era curta. O toque da campainha trouxe três das meninas até a entrada do apartamento. Nesta idade, elas sempre andam assim, acompanhadas umas das outras, nunca sozinhas, mesmo pra atender à porta. Quando a dona da casa os levou à sala os dois não puderam segurar os sorrisos: eram seis, todas lindas. As bebidas espalhadas pela mesa e o som ligado com o cd de música eletrônica enchiam-nos de expectativa. A noite ia ser boa. Só o que não lhes encheu os olhos foi a chegada de mais quatro rapazes, alguns minutos depois. Era querer demais que tudo aquilo só os favorecessem. Enquanto Thiago sentava ao sofá para tentar timidamente se entrosar com elas o amigo-pinguço buscava nas opções a bebida mais forte para servir a todos. Foi a surpresa do baixinho quando uma das meninas tirou de seu bolso o frasco com o nome-disfarce de Aromatizador: desde época de carnaval não via lança-perfume de tão de perto. Com seu corpo franzino já bem próximo a ela usava ao entorpecente junto ao seu desjeito de abordar à menina. Inalava numa velocidade que não deixava tempo nem pra raciocinar, inalava até perder a noção de onde estava. A rapidez com que ia esvaziando o frasco junto dela só não era maior do que a velocidade que Juca tomava a garrafa de vodka, junto da mais bonita das moças reunidas. Uma loira indescritível. Os que estavam na varanda encostaram a porta um pouco, isolando os dois ambientes. Foi quando Thiago voltou a si que notou que o amigo já beijava a loira, antes mesmo dele iniciar a planejar como iria executar o mesmo com a garota que estava em sua companhia. Ele era mesmo assim, nunca o entendera: sempre se dava melhor com tudo, era um cara de sorte, sempre ganhava as mais bonitas com pouca dificuldade. Às vezes quando tocavam no assunto respondia “Tem que beijar logo, nada de muita conversa, rapaz!”. Mas isso não funcionava para si. Só um cara maluco como Juca conseguia matar aula e se dar bem no colégio, colocar o dedo na cara de homens bem mais fortes do que ele e não apanhar. Só ele conseguia ganhar as garotas assim, sem conversar. Tocou em alguns assuntos sem importância com a menina-do-lança para quebrar o clima: tão próximos do outro casal e afastados do resto do grupo, era possível acontecer algo a qualquer momento, o que tirava a sua tranqüilidade. Foi planejando do seu modo o ataque até que conseguiu toma-la nos braços e suspirar um beijo. Mas não deu tempo de aproveita-lo. A Cecília aparecia entre os, agora, dois casais de jovens para dar a péssima notícia.
-São meus pais. Estão chegando. Só as meninas podem ficar, isso é sério!
Entre as caras de decepção e as correrias para apagar os vestígios dentro do apartamento assim foi chegando ao fim a “festinha”, pela metade. Sem ter como ir embora, abordaram a um dos convidados do evento na porta do prédio
-Dá um carona pra gente cara, pode ser até o posto do Itaigara.
O motorista-irregular de dezesseis anos com o carro roubado do pai abriu-os a porta somando-os ao banco de trás com os outros e saiu em velocidade máxima pela avenida ACM. A aventura com aquele menino bêbado no volante divertia Juca como quem estivesse numa das melhores montanhas-russas dum parque . Ria, ria... Das fechadas nos veículos que tinham o azar de cruzar com eles, dos cones-de-trânsito roubados pelo caminho, só por diversão, da freiada em cavalo-de-pau em meio à curva. Mas o que mais lhe causava mesmo o riso era a cara de medo hilária do Thiaguinho que não achava graça nenhuma naquelas atitudes irresponsáveis, daquele sujeito desconhecido. Quando finalmente pararam, saiu do carro aliviado em direção á loja do posto e se voltou para as prateleiras ao lugar que ocupa a Brahma. Mas foi interrompido, sutilmente pelo amigo, que tentava mostrar alguma compreensão pela sua expressão de nervosismo.
-Deixa comigo Thiagão. Essa é por minha conta.
E assim voltavam cada um ao seu banco da mesma mesa, no mesmo lugar, daquela mais uma noite de sextas-sem-dinheiro, sem programa e sem a mínima vontade de voltar para casa.
-E agora?
Juca olhou atento ao movimento na porta observando às pesoas que entravam, mas não tinha nada a ver com a pergunta do baixinho, apenas verificava se havia entre elas alguma moça desacompanhada.
-E agora o quê?
-Sei lá Juca...Alguma idéia?O que fazemos?
-Tsc...Bom, você tem o número de Bete ai?

quarta-feira, junho 08, 2005

Em uma dessas noites - I

No copo, o nível do whisky ia baixando, antes mesmo que o gelo se derretesse. O fim da terceira dose seria o tempo-prazo ideal para ir a seu encontro, assim como o nível ideal de satisfação alcoólica. Três doses seriam suficientes num período de trinta minutos para me encorajar, ainda mais contando com o fato de que eram cuidadosamente caprichadas pelo Marcelão, garçom conhecido. Os anos de freqüência na Fashion-club haviam me rendido algumas amizades. Procurei não demorar mais. Desde aquela meia hora que a avistara, ensaiava o diálogo dentro de mim até que me permitisse ser visto. A ultima noite que tivera oportunidade de encontra-la, a conversa havia sido breve demais, não rendera o suficiente para aproxima-la a ponto de lhe arrancar o beijo já merecido de tanto tempo. A necessidade da demora era justamente para lembrar algum assunto para tocar, bom o suficiente que lhe prendesse a atenção desta vez.

Não foi fácil chegar até ela, havia uns dois rapazes ao seu lado disputando sua atenção. Mas ao me ver se afastou, com discrição, abrindo um espaço para o abraço - adoro a maneira que ela me antecede - Entre sorrisos e comprimentos, nos permitíamos uma aproximação maior. Meu corpo inclinava ao seu ouvido, facilitando a audiência: com todo aquele ruído e som alto, sempre corria o risco de ser mal entendido. Despertei seu interesse quando pintou o assunto dos velhos tempos de Guarajuba. Eu tinha a certeza que conseguiria entretê-la com algo neste dia. Surpreendeu-me a forma que foi tocando, meio que acidentalmente meus braços, facilitando o momento de definição. Mas a minha surpresa maior foi quando as amigas à tomaram de mim cheia de pressa “Tenho que ir, volto aqui caso convença alguma delas a ficar”. Eu odeio amigas. São sempre as causas maiores dos piores suscedimentos das noitadas. Voltei-me a companhia dos colegas que estavam comigo. E agora? Talvez fosse melhor matar o tempo ao lado deles e esperar ver o que aconteceria. Ou procurar àquelas figuras manjadas, que sempre encontro nos eventos e que todos já cansaram de me ver junto, inclusive eu. Ou arriscar a pista talvez? Às quinze para as três da manhã, qualquer coisa seria lucro. Provavelmente não era mesmo o meu dia. Ao sair de casa numa sexta a noite, na verdade, já devo estar preparado para estes tipos de episódios ocasionais lamentáveis, inevitáveis. De repente, em meio ao andar escuro de baixo , aquele mesmo vestido rosa , em movimento. A direção tomada era à escada que da o acesso ao segundo andar . Era ela, voltou! Indo pro mesmo local onde conversamos. Corri, apressado de mim mesmo. Não, não foi ao seu encontro. Era mais razoável esperar que me procurasse alguns minutos antes de voltarmos a nos achar. A rapidez foi para chegar ao bar. A sutileza em que apoiei o copo revelava minha intimidade com o balcão. Depois de tantas noites, já tinha assistido a muitas de minhas bebedeiras de sucessos e fracassos naquele lugar. Sabia muito sobre mim, era bom que o respeitasse. “Marcelão, mais uma dose daquele velho whisky . Dupla, faz o favor”. Vai começar tudo denovo.

terça-feira, junho 07, 2005

Não importa

Confesso que sou um pouco distraído, mas também não me importo. Nunca quis me desfazer disso, me distraio da minha própria distração. Faço pouco caso do próprio descaso. Sou assim. Quando vou para o trabalho pela manhã, se vejo que tenho tempo procuro o caminho mais longo e engarrafado, que me exige menos atenção para dirigir. Fico escrevendo alguns textos dentro de mim no caminho, ou continuo sozinho aquelas conversas que comecei com alguém no fim de semana. As pessoas acham que estou desatento. Eu estou sim, atento, mas não ao mesmo que elas. Nem sempre o que interessa aos outros é o mesmo que me causa interesse. Nem sempre o que preocupa a todos é um motivo justo de preocupação para mim. Aqui em casa se irritam comigo quando deixo a janela do quarto aberta enquanto estou no computador, acham que o vento pode estragar à cortina. Eu não entendo tanta irritação: talvez o calor que esse apartamento faz tenha estragado com a calma de minha família nestes últimos anos. Corro para abri-la novamente quando ninguém está mais olhando, evito que o mesmo aconteça comigo. É eu ou ela. Meus amigos acham incrível o fato de que eu não me preocupo com nada. Não é isso. É que minha preocupação é bem diferente.

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domingo, junho 05, 2005

Brinquedo de criança

Nunca segui receita alguma, escolho apenas ingredientes. Misturo e observo os resultados. Faço tudo que me ensinaram que é errado e , finalmente, descubro um erro. Ou não. Odeio regras . Nunca gostei me Manual de Instruções: quando pequeno, preferia ficar bulindo no brinquedo novo até que aprendesse, sozinho a jogar. Eu sempre achava mais divertido assim, e continuo achando hoje. Tinha jogos que eu acabava encontrando uma maneira diferente de brincar, aprendi muito isso. Às vezes, a coisa errada é , justamente, a certa a se fazer. O certo de vez em quando é chato demais, não agrada, é errado. Tem momentos na vida que o arriscar é não arriscar. Permanecer o tempo inteiro sem correr riscos que é perigoso demais. Havia jogos que não sabia por onde começar a brincar, complexos. Mas nem sempre a gente pode começar tudo pelo começo, deve-se aprender também a fazer sentido do meio por fim. Ou, de repente, saber fazer também sem ter final previsto. Eu não sabia como iria terminar este texto quando comecei a escrever. Na verdade, foi uma surpresa perceber que estava terminando. Eu também sou assim, não conheço todas minhas regras: me escondo algumas pra ir descobrindo depois. Um truque antigo, da minha imaginação.

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