sexta-feira, abril 15, 2011

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos - I





“E depois?” “As estrelas.” “E depois das estrelas?“ “As estrelas das estrelas...” “E depois?” Risos. “Ah, não sei. Vira pra cá, vai... Você me deixa escrever seu rosto?” “E como é isso de escrever um rosto hein?” “É o mesmo que desenhar. Só que por dentro.”


Fernando Palma









Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas. 




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quinta-feira, outubro 08, 2009

O Hospedeiro – Biografia Resumida

Para Marcelo Cantalice
















Nasci nas ruas de pensamentos solitários. Não tinha sentimento para morar. Fui explorado por medos que me aprisionaram distante de onde eu era. Desisti de me libertar por muito tempo, até que um dia tentei. Fugi, e por não saber para onde ir, morei na própria ida. Falido, vivia em personalidades de aluguel, das mais baratas que encontrava. Cheguei a erros que me furtaram algumas esperanças que economizei desde cedo. Cheguei ao passado disfarçado de futuro. Cheguei a paixões que nem sempre chegaram a mim. Sem saída, cheguei à tristeza. Mas minha tristeza nunca soube me acolher. Cheguei a sonhos, depois à insegurança. Depois a sonhos. Voltei, encorajei, passava por contradições na ida-volta-e-não-ida. Guardei o endereço de algumas palavras que fiz amizade no caminho, mas nunca encontrei as verdadeiras palavras que me inventaram.

Hoje, superei meu abandono e transformei-me em uma re-invenção de mim. Não procuro mais onde viver, realizei meu sonho: sou casa própria. Estou sempre em obras e aberto a visitas. Uma moradia sólida, espaçosa e um hospedeiro insaciável: abrigo mais do que fui capaz de ser.

Sou muito mais do que já fui capaz de abrigar.

Fernando Palma, Junho de 2007

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terça-feira, outubro 06, 2009

Cotidiano - II (Parte- II)

O momento do almoço era o mais importante. Distraído, tagarelava com algumas idéias felizes que ocupavam a passividade do instante. Conversava consigo, o diálogo com colegas apenas mantinha as aparências. O movimento ávido no shopping emprestava um pouco mais de vida à rotina ativa e empírica do trabalho cansado. O horário tinha liberdade para acontecer, por isso ele gostava. Sabia que qualquer destes instantes fatalmente seria um pouco mais diferente, um acidente feliz, inexplicado, um reencontro. O acaso. Não era exatamente acaso, porque ele já sabia. No entanto, não havia motivo ou prova para justificar como ou por que saberia, apenas sabe. Porque ele aprendeu a acreditar nas coisas sem haver razão e dessa maneira era mais bonito e verdadeiro. Bastava alguma força do querer, a realidade não é tão difícil . Sua crença sempre fora intocável e paciente, assim como a serenidade usada todos os dias para cuidadosamente alternar os três itens que mais gostava das opções de refeição. Como para ir ao cinema com o carro que só usa fim de semana, como para calcular os gastos, pagar as contas. Para trabalhar.

Até o fim de expediente, resistia ainda tranqüilo, mesmo com presença fática da canção lhe vigiando a memória. Mesmo com satisfação óbvia apregoada ao semblante dos trabalhadores esforçados, transpirando, empurrando o resto do dia para chegar logo às dezoito horas. Acima de tudo e todos, permanecia sereno e paciente na mesma posição que trabalha durante toda a semana. E a satisfação pela Sexta-feira permanecia linearmente em duvida a quem quer que o visse, calmo. Estaria feliz como os demais? Seria sua felicidade serena?

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domingo, outubro 04, 2009

Cotidiano - II (Parte 1)


A Sexta-feira não era como os outros dias. No mínimo, algo particular. Ainda disfarçado pelo terno que comprou as pressas na Vinte e Cinco de Março para ocupar o cargo, chegava ao trabalho com barba mal feita e um pouco mais de cansaço acumulado da Semana, quando que por desatenção caiu em pensamento numa melodia vaga. Melodia que invadia e tocava sem parar. Nem havia musica por perto.



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sexta-feira, junho 08, 2007

Pedaços de Histórias - I


O Bolo
Rompeu com a covardia. Procurou a coragem. Marcou encontro, dia, horário, lugar. Finalmente iria conquistá-la. Como sempre sonhou.
Mas a coragem faltou.

***


Descanso
Nada mais poderia impedi-lo. Jogou fora o celular, as roupas, tudo que lembrasse que ele era ele, até o próprio corpo. Nunca havia juntado um sentimento tão grande de liberdade, e o contraditório é que, como nunca, sentia-se ele mesmo. Ainda não escolheu destino, talvez a mente de uma criança por perto, ou uma ave distante pra conhecer novas formas de vida. O que importa é partir logo. Um pouco de concentração, novas idéias, whisky na bagagem para qualquer emergência. Há anos ele estava tentando tirar férias dele mesmo.

***

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sexta-feira, junho 01, 2007

Antes do Adormecer



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Gesticulava com a cabeça expressando consentimento, mas não interesse. Olha, aqui você guardará suas roupas, está vendo? E aqui os brinquedos. Na prateleira, guardará o material escolar. Viu quanto espaço? Olha só a cama, olhou, a bancada, olhou. As paredes ardiam em tinta fresca. Pintamos em azul, gostou? O chão brilhando, móveis novos, nada o despertava atração. Bastou um vacilo e distraiu-se propositalmente da voz da mãe e foi então que os pais repararam e inquietaram-se. De curiosidade, e de surpresa, e mistério bobo, e não estou certo disso, mas talvez tenha existido uma pequena dose de indignação ou desilusão misturada na fisionomia do casal. Olhava para o teto. Ele olhava colhendo alguma expectativa, forçando apenas o olho esquerdo, o direito continuava aberto um pouco triste, como se estivesse avaliando intimidade, ou falta dela, enquanto os pequenos dedos escapavam pela mão materna, suada - agora finalmente quieta por causa a cena -. Era uma expressão precisa, e digna de estudo. O teto. Vazio. Os adultos continuavam estupefatos e comungavam um silêncio embaraçado. Não reagiram por um instante até que a iniciativa do pai remediou o clima. Vamos ver o quarto da mamãe e do papai agora? E assim, por insensibilidade ou por velhice ele foi interrompido de sua própria ingenuidade, e ignorado de sua insegurança. Foi subestimado de seu gesto que olhava para o mundo dos pequenos, que eles esqueceram que existia. O mundo que não tinha nada haver com aquilo ali, que na verdade significava muito.

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domingo, maio 20, 2007

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos – II


A cidade era pequena, mas o verão se vestia de grande. Desconhecida, nem violência escutara seu nome. O colégio, generoso, tinha amizade boa com surpresa, mais do que com o próprio ensino. É você o menino que escreve?

Os olhos em tropeço, recusando o desafio dos olhos dela, dedos apertando os livros para se livrar das mãos. O pátio em ventania de recreio salvava o silêncio. Ele não acreditava. Ela tinha curiosidade. A notícia das redações de classe tinha chegado à Quarta série.

No início, a poesia fazia o assunto da amizade, depois, a amizade se lambuzava pelos corredores e mal cabia em poesia. Descobriram que eram vizinhos de rua, bastavam duas quadras. Em pouco tempo, viraram também vizinhos de alguma outra coisa intima deles. Mas disso ninguém sabia.

Nas férias, as tardes levavam as crianças pra brincar e depois, exaustas, adormeciam em baixo da noite. O dia não era vigiado pelo relógio, por isso não tinha pressa de ir embora. Ele gostava da praça da Igreja, no alto. Dava pra ver a casa dela. Escrevia-lhe em bilhetes os sorrisos recém-nascidos pela manhã, mãos dos guris serviam correios. Ponderava a brincadeira e paixão, um olho na pipa, o outro ansioso investigava as pistas das respostas, os méritos e aparições. Daí, chegavam poemas em abraços, versos-olhos soprados nas beiradas das ruas – bem pequenos pra que ninguém notasse, - ao escurecer, telefonemas. E as paisagens exclusivamente femininas, ilustradas atrás da voz da ligação. O resto do mundo quase não fazia diferença.

Antes do sono, costurava com lápis acontecimentos na cabeceira. Reeditava episódios, imenso dele mesmo, formatava em letras rabiscadas, trancava tudo no quarto. Mãe insistia na janta. Cauteloso, carregava trechos no bolso, as palavras na ponta da língua. Quando a retribuição vinha forte, encorajava a mão direita a cantar a dela. A esquerda, com medo, se encolhia em aviso. Incerto, corria para longe de si mesmo, mas deixava os ouvidos fazendo companhia. Ela achava que ele fechava os olhos pra imaginar. Criaram o talento de ir para mundos irreais, às vezes, mesmo sem notar, faziam um pouco de esforço e iam. E ninguém era capaz de trazê-los. O tempo, rendido, esperava.

Por alguns anos, ele mesmo esboçou uma eternidade com as letras. No quarto, esboçou as histórias, as ruas, as esquinas. Até que finalmente deixou borrar toda sua obra-prima em lágrimas, quando desiludiram sua inspiração. A família dela ia pra cidade maior, restavam as férias como despedida. Pousou duas fitas que abanavam os cabelos em suas mãos. Eu volto, desejou. E foi de vez, do lugar escondido pela própria geografia. As fitas eram pra não esquecer dela.

O quarto engasgado. O colégio esvaziando de gente, a cidade silenciando seu nome, e os vestígios dela sendo pouco a pouco arrastados pelos ventos nos lugares prediletos. Só não arrastaram os recados gravados em caneta vermelha acenando no caderno. As mensagens nas nuvens zombando distâncias, as fitas descolorindo na prateleira do quarto, e os telefonemas ocasionais, moinhos de ausências. Você lembra que eu te chamava de meu poeta? Eles nunca puderam confessar que se amavam.


Fernando Palma, Dezembro de 2007

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domingo, maio 06, 2007

Cotidiano - I


http://populo.weblog.com.pt/arquivo/casa1024.jpg

Acordou as nove, mas não olhou que horas eram. Vestiu o agasalho estendido na cadeira, nem fazia frio. Fez café sabendo que não iria tomá-lo, ninguém iria tomá-lo. Apenas fez.


Correu a casa verificando o silêncio, uma paz indesejada, cumprimentou as paisagens que pulavam pelas janelas.


Saiu à praça para encontrar com algumas árvores, vigiava as folhas e os sapatos das pessoas, atravessava o tempo com a imaginação. Caminhou pela calçada, passou pelo o lago, passou pelo o lago, caminhou pela calçada. O quarteirão de tão pequeno parecia sufocá-lo.



Os vizinhos roubavam-lhe de sua privacidade. Atrapalhavam sua tristeza. Permaneceu incolor, atrás dos óculos. Tropeçava em vozes, editava histórias que escutava nas esquinas. Aquele lugar é próprio à história alheia.


O vento o ajudava a caminhar, seguia com pouca pressa. Nem se preocupou em olhar para os dois lados ao atravessar a rua. O mundo só atropela o que está em evidência.


Visitou bares e copos de cerveja. Tomava uma garrafa a cada parada, exatamente uma garrafa, nada mais consumia. Voltou pelo mesmo trajeto, pouco antes das seis. Não conseguiria suportar o peso da noite.


Deixou o portão entreaberto, a espera de ventos.


Preparou o jantar, comeu apenas o suficiente, dispensou o banho. Deitou no sofá para escapar da cama vazia. Adormeceu antes que o próprio sono.


Fernando Palma

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quarta-feira, setembro 07, 2005

Pequenas histórias de colégio - I

-Dudu, me empresta sua borracha. – apanhava-a entre as diversas que carregava em seu estojo infestado de materiais . Quem fazia o pedido – que soava quase uma ordem - era o colega mais popular da sala. Jamais tinham contato fora destas situações.
Na verdade, era o único motivo que fazia alguém chamar pelo seu nome naquela classe. Talvez, não fosse pelas notas divulgadas com ênfase pela professora e pelos seus materiais emprestados nem o lembrariam. Quando não por uma destas duas razões seu nome entrava mesmo em desnecessidade de ser chamado.
-Equipes de cinco pessoas - anuncia a professora, para preocupação de Dudu. Os grupos bem previsíveis daquela turma se formavam já que quase espontaneamente. Dudu podia adivinhar as formações, assim como prever que ele não cabia em nenhuma delas. Não que não quisesse participar, mas era exatamente o contrário. A única coisa que aprendera sobre grupos naquele tempo é que ele ficava fora deles.
Eduardo era um exemplo da sala. O primeiro aluno. Em casa o centro de atenções "Só tira dez!" exibia-o aos amigos o pai nos fins de semana embriagado mais de orgulho do que da própria cerveja. Mas Dudu só não entendia porque não agradava aos de sua idade. Talvez por culpa de alguns garotos que o judiavam com apelidos. A professora então, o defendia “É apenas um menino inteligente!” Inteligente era um tipo de criança distinta que prestava atenção na aula, que não jogava bola e nem falava palavrão. Mas apesar disso ele era um bom amigo, um menino legal, imaginava consigo. Só que ninguém tinha descoberto ainda.
-Dudu vai entrar na equipe de vocês, ok? - A professora resolveu enfim, fazer o que ele já esperava.
Aproximo-se daquela equipe que estava, até então incompleta. Se antes, estava distante de todos calado, agora permanecia próxima aquele grupo que acabara de entrar. Mesmo que fosse para continuar calado.
Chegava o horário do intervalo, conclui ao consultar seu relógio. Todos os dias planejava como ocupar aqueles exatos trinta minutos. Tiraria algumas dúvidas da lista com a professora, mais algum tempo para o lanche, calculava. A preocupação era para não restar tempo desocupado em que houvesse chance de se sentir só durante o intervalo.
Neste tempo então, Dudu aprendeu que não bastava ser um bom menino para fazer amizades, tinha que ter também o talento de saber ser reconhecido. Aprendeu que não basta estender mão para ganhar a gratidão. Aprendeu que fazer amigos era como resolver questões de MMC. Requer prática. E aprendeu que é estando sozinho que mais se aprende essas coisas complicadas sobre amizade.
O toque do sinal era acompanhado pela movimentação brusca das carteiras e pela fidelidade de Dudu à mesa da professora.
-Tia, você pode tirar algumas dúvidas da minha lista?
Neste tempo, Dudu também aprendeu a gostar de matemática.

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quarta-feira, agosto 03, 2005

O vício


Nunca bebeu. Sempre teve horror a cigarro. À medida que o tempo passava ficava cada vez mais contra a qualquer tipo de vício. Foi surpresa da família quando parou de comer carne vermelha. E cortou mais ainda a alimentação. Era quase um naturalista. Quero estar livre de porcarias, dizia. Só tomava sol antes das dez, em horário recomendado. Começou a mudar ainda mais. Proibiu doces em casa, sorvete, biscoitos, guloseimas. As crianças reclamavam. Começou a regular o vídeo- game do mais novo e a internet da mais velha. Tinha pavor a vícios. Era contra jogos. Proibia baralhos em casa, dominó. Tinha horário certo de assistir tv. Parou de usar ar– condicionado, leu que fazia mal. Parou de ler todo dia, pra não viciar. Á noite então, ao deitar começava a se sentir estranho. Começou a perder o sono, algo o incomodava. Uma sensação diferente, preocupante. Trocou o café pelo suco, o açúcar pelo adoçante. Mas a insônia lhe persistia. E aumentava a cada noite. Perdeu o vício de dormir à tarde, assistia menos à novela, tinha hora certa de ir pra cama. Parou de comer de noite, ouviu dizer que fazia mal. Parou de tomar refrigerante-diet, por causa da cafeína. Mas aquela sensação não foi embora, e o deixava acordado. Mexia-se na cama, perdia a concentração. Mudava de posição, mudava de travesseiro, nada adiantava. Trocou o suco pela água, parou de sair à noite de Sábado, mesmo a esposa sendo contra. Parou de vez de assistir novela. Depois já não assistia mais tv. Até o rádio pouco escutava. Perdeu todos os costumes ruins. Mas algo ainda o incomodava, e tirava seu sono. De madrugada pensava no que havia de errado, inquieto na cama. Tinha algo que o deixava aflito. Não sabia o que era. Tudo estava em ordem, pensava. As contas estavam em dia. Era um exemplo de pessoas saudável. E o melhor de tudo: não tinha nenhum vício. Era o seu maior orgulho. Homem livre de vícios! Mas ele não percebia é que lhe restava sim, um grande vício. Um único vício, que nunca perdia. E estava o matando. O vício de se preocupar com tudo.

Participação especial na adaptação deste texto do amigo Esdras Barrteo.

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