quarta-feira, novembro 11, 2009

Cotidiano - II


Era uma canção que nem sabia nome, mas tomava de tempos em sua mente, ocupava qualquer pensamento. Chegando no trabalho, disfarçado com sua roupa formal para dia de semana, tentava fazer sentido a canção sem nome.

O movimento ávido no shopping emprestava um pouco mais de vida a rotina ativa e empírica do trabalho cansado. O horário tinha liberdade para acontecer, por isso ele gostava. Não era exatamente acaso, porque ele já sabia. No entanto, não havia motivo ou prova para justificar como ou por que saberia, apenas sabe. Porque ele aprendeu a acreditar nas coisas sem haver razão e dessa maneira era mais bonito e verdadeiro. Bastava alguma força, a realidade não é tão difícil. Sua crença fora intocável e paciente, como a serenidade usada todos os dias para cuidadosamente alternar os três itens que mais gostava das opções de refeição. Como para ir ao cinema, com o carro que só usa fim-de-semana, como para calcular os gastos.

Até o fim de expediente, resistia ainda tranqüilo, mesmo com presença fática da canção lhe vigiando a memória. Mesmo com satisfação óbvia apregoada ao semblante dos trabalhadores esforçados, transpirando, empurrando o resto do dia para chegar às dezoito horas. Acima de tudo e todos, permanecia sereno e paciente, na mesma posição que trabalha durante toda a semana.

Muitas vezes, ele vivia como um observador do mundo. Um telespectador paciente. Assistia as pessoas sem se deixar perceber, via e ouvia a tudo tentando se fazer pouco interferente, como quem já tivesse vivido o que ocorre ao redor. Como no cinema. Como quem tivera revendo algo que com saudosismo, com atenção, do lado de fora.

O metrô andava mais depressa neste dia particular. Debaixo do braço, um vinho suave e meio maço de cigarros guardados da semana. O vinho era o mesmo, uma única garrafa, sempre.

No sofá, ensaiava acontecimentos dos filmes. E diálogos de cinema que guardava para um dia usar em alguém. Preferia os romances, como nos livros, mesmos os menos atrevidos, onde tudo parecia fácil e compreensível: para todos haveria uma oportunidade, um reencontro, aquele acidente feliz. Como no shopping.

Apagou o ultimo cigarro, espirou um pouco do ar que lhe restava, reproduzindo com a boca uma expressão que lembra bem um bocejo.

Fracassou ao tentar desligar a TV. Acabou dormindo com o volume bastante alto, para atrapalhar a canção triste-bela que, por dentro, sobreviveu durante todo o dia.

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terça-feira, outubro 06, 2009

Cotidiano - II (Parte- II)

O momento do almoço era o mais importante. Distraído, tagarelava com algumas idéias felizes que ocupavam a passividade do instante. Conversava consigo, o diálogo com colegas apenas mantinha as aparências. O movimento ávido no shopping emprestava um pouco mais de vida à rotina ativa e empírica do trabalho cansado. O horário tinha liberdade para acontecer, por isso ele gostava. Sabia que qualquer destes instantes fatalmente seria um pouco mais diferente, um acidente feliz, inexplicado, um reencontro. O acaso. Não era exatamente acaso, porque ele já sabia. No entanto, não havia motivo ou prova para justificar como ou por que saberia, apenas sabe. Porque ele aprendeu a acreditar nas coisas sem haver razão e dessa maneira era mais bonito e verdadeiro. Bastava alguma força do querer, a realidade não é tão difícil . Sua crença sempre fora intocável e paciente, assim como a serenidade usada todos os dias para cuidadosamente alternar os três itens que mais gostava das opções de refeição. Como para ir ao cinema com o carro que só usa fim de semana, como para calcular os gastos, pagar as contas. Para trabalhar.

Até o fim de expediente, resistia ainda tranqüilo, mesmo com presença fática da canção lhe vigiando a memória. Mesmo com satisfação óbvia apregoada ao semblante dos trabalhadores esforçados, transpirando, empurrando o resto do dia para chegar logo às dezoito horas. Acima de tudo e todos, permanecia sereno e paciente na mesma posição que trabalha durante toda a semana. E a satisfação pela Sexta-feira permanecia linearmente em duvida a quem quer que o visse, calmo. Estaria feliz como os demais? Seria sua felicidade serena?

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domingo, outubro 04, 2009

Cotidiano - II (Parte 1)


A Sexta-feira não era como os outros dias. No mínimo, algo particular. Ainda disfarçado pelo terno que comprou as pressas na Vinte e Cinco de Março para ocupar o cargo, chegava ao trabalho com barba mal feita e um pouco mais de cansaço acumulado da Semana, quando que por desatenção caiu em pensamento numa melodia vaga. Melodia que invadia e tocava sem parar. Nem havia musica por perto.



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domingo, maio 06, 2007

Cotidiano - I


http://populo.weblog.com.pt/arquivo/casa1024.jpg

Acordou as nove, mas não olhou que horas eram. Vestiu o agasalho estendido na cadeira, nem fazia frio. Fez café sabendo que não iria tomá-lo, ninguém iria tomá-lo. Apenas fez.


Correu a casa verificando o silêncio, uma paz indesejada, cumprimentou as paisagens que pulavam pelas janelas.


Saiu à praça para encontrar com algumas árvores, vigiava as folhas e os sapatos das pessoas, atravessava o tempo com a imaginação. Caminhou pela calçada, passou pelo o lago, passou pelo o lago, caminhou pela calçada. O quarteirão de tão pequeno parecia sufocá-lo.



Os vizinhos roubavam-lhe de sua privacidade. Atrapalhavam sua tristeza. Permaneceu incolor, atrás dos óculos. Tropeçava em vozes, editava histórias que escutava nas esquinas. Aquele lugar é próprio à história alheia.


O vento o ajudava a caminhar, seguia com pouca pressa. Nem se preocupou em olhar para os dois lados ao atravessar a rua. O mundo só atropela o que está em evidência.


Visitou bares e copos de cerveja. Tomava uma garrafa a cada parada, exatamente uma garrafa, nada mais consumia. Voltou pelo mesmo trajeto, pouco antes das seis. Não conseguiria suportar o peso da noite.


Deixou o portão entreaberto, a espera de ventos.


Preparou o jantar, comeu apenas o suficiente, dispensou o banho. Deitou no sofá para escapar da cama vazia. Adormeceu antes que o próprio sono.


Fernando Palma

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quarta-feira, agosto 03, 2005

O vício


Nunca bebeu. Sempre teve horror a cigarro. À medida que o tempo passava ficava cada vez mais contra a qualquer tipo de vício. Foi surpresa da família quando parou de comer carne vermelha. E cortou mais ainda a alimentação. Era quase um naturalista. Quero estar livre de porcarias, dizia. Só tomava sol antes das dez, em horário recomendado. Começou a mudar ainda mais. Proibiu doces em casa, sorvete, biscoitos, guloseimas. As crianças reclamavam. Começou a regular o vídeo- game do mais novo e a internet da mais velha. Tinha pavor a vícios. Era contra jogos. Proibia baralhos em casa, dominó. Tinha horário certo de assistir tv. Parou de usar ar– condicionado, leu que fazia mal. Parou de ler todo dia, pra não viciar. Á noite então, ao deitar começava a se sentir estranho. Começou a perder o sono, algo o incomodava. Uma sensação diferente, preocupante. Trocou o café pelo suco, o açúcar pelo adoçante. Mas a insônia lhe persistia. E aumentava a cada noite. Perdeu o vício de dormir à tarde, assistia menos à novela, tinha hora certa de ir pra cama. Parou de comer de noite, ouviu dizer que fazia mal. Parou de tomar refrigerante-diet, por causa da cafeína. Mas aquela sensação não foi embora, e o deixava acordado. Mexia-se na cama, perdia a concentração. Mudava de posição, mudava de travesseiro, nada adiantava. Trocou o suco pela água, parou de sair à noite de Sábado, mesmo a esposa sendo contra. Parou de vez de assistir novela. Depois já não assistia mais tv. Até o rádio pouco escutava. Perdeu todos os costumes ruins. Mas algo ainda o incomodava, e tirava seu sono. De madrugada pensava no que havia de errado, inquieto na cama. Tinha algo que o deixava aflito. Não sabia o que era. Tudo estava em ordem, pensava. As contas estavam em dia. Era um exemplo de pessoas saudável. E o melhor de tudo: não tinha nenhum vício. Era o seu maior orgulho. Homem livre de vícios! Mas ele não percebia é que lhe restava sim, um grande vício. Um único vício, que nunca perdia. E estava o matando. O vício de se preocupar com tudo.

Participação especial na adaptação deste texto do amigo Esdras Barrteo.

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