terça-feira, abril 26, 2011

Pequenos Poemas

Brincadeira de Criança






Estico os dedos para alcançar por dentro.


Brinco de esconder,
procuro novo de mim.


Há mais esconderijos que olhos,
não sou capaz de me encontrar.


Todos que fui
ainda não me acharam.


Brinco de perder-me,
brinco de desorganizar,
brinco de inverter
brinco de desorganizar,
brinco de perder-me,

Estico os dedos para encontrar esconderijos.


Brinco de novo de mim
procuro me esconder.


Há olhos por dentro que alcançam
quem ainda não fui capaz de ser.


Todos que me achei
ainda não fui.

Fernando Palma

Marcadores: , , ,

sexta-feira, abril 15, 2011

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos - I





“E depois?” “As estrelas.” “E depois das estrelas?“ “As estrelas das estrelas...” “E depois?” Risos. “Ah, não sei. Vira pra cá, vai... Você me deixa escrever seu rosto?” “E como é isso de escrever um rosto hein?” “É o mesmo que desenhar. Só que por dentro.”


Fernando Palma









Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas. 




Marcadores: , , , , , ,

domingo, maio 20, 2007

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos – II


A cidade era pequena, mas o verão se vestia de grande. Desconhecida, nem violência escutara seu nome. O colégio, generoso, tinha amizade boa com surpresa, mais do que com o próprio ensino. É você o menino que escreve?

Os olhos em tropeço, recusando o desafio dos olhos dela, dedos apertando os livros para se livrar das mãos. O pátio em ventania de recreio salvava o silêncio. Ele não acreditava. Ela tinha curiosidade. A notícia das redações de classe tinha chegado à Quarta série.

No início, a poesia fazia o assunto da amizade, depois, a amizade se lambuzava pelos corredores e mal cabia em poesia. Descobriram que eram vizinhos de rua, bastavam duas quadras. Em pouco tempo, viraram também vizinhos de alguma outra coisa intima deles. Mas disso ninguém sabia.

Nas férias, as tardes levavam as crianças pra brincar e depois, exaustas, adormeciam em baixo da noite. O dia não era vigiado pelo relógio, por isso não tinha pressa de ir embora. Ele gostava da praça da Igreja, no alto. Dava pra ver a casa dela. Escrevia-lhe em bilhetes os sorrisos recém-nascidos pela manhã, mãos dos guris serviam correios. Ponderava a brincadeira e paixão, um olho na pipa, o outro ansioso investigava as pistas das respostas, os méritos e aparições. Daí, chegavam poemas em abraços, versos-olhos soprados nas beiradas das ruas – bem pequenos pra que ninguém notasse, - ao escurecer, telefonemas. E as paisagens exclusivamente femininas, ilustradas atrás da voz da ligação. O resto do mundo quase não fazia diferença.

Antes do sono, costurava com lápis acontecimentos na cabeceira. Reeditava episódios, imenso dele mesmo, formatava em letras rabiscadas, trancava tudo no quarto. Mãe insistia na janta. Cauteloso, carregava trechos no bolso, as palavras na ponta da língua. Quando a retribuição vinha forte, encorajava a mão direita a cantar a dela. A esquerda, com medo, se encolhia em aviso. Incerto, corria para longe de si mesmo, mas deixava os ouvidos fazendo companhia. Ela achava que ele fechava os olhos pra imaginar. Criaram o talento de ir para mundos irreais, às vezes, mesmo sem notar, faziam um pouco de esforço e iam. E ninguém era capaz de trazê-los. O tempo, rendido, esperava.

Por alguns anos, ele mesmo esboçou uma eternidade com as letras. No quarto, esboçou as histórias, as ruas, as esquinas. Até que finalmente deixou borrar toda sua obra-prima em lágrimas, quando desiludiram sua inspiração. A família dela ia pra cidade maior, restavam as férias como despedida. Pousou duas fitas que abanavam os cabelos em suas mãos. Eu volto, desejou. E foi de vez, do lugar escondido pela própria geografia. As fitas eram pra não esquecer dela.

O quarto engasgado. O colégio esvaziando de gente, a cidade silenciando seu nome, e os vestígios dela sendo pouco a pouco arrastados pelos ventos nos lugares prediletos. Só não arrastaram os recados gravados em caneta vermelha acenando no caderno. As mensagens nas nuvens zombando distâncias, as fitas descolorindo na prateleira do quarto, e os telefonemas ocasionais, moinhos de ausências. Você lembra que eu te chamava de meu poeta? Eles nunca puderam confessar que se amavam.


Fernando Palma, Dezembro de 2007

Marcadores: , , , , ,

quarta-feira, setembro 07, 2005

Pequenas histórias de colégio - I

-Dudu, me empresta sua borracha. – apanhava-a entre as diversas que carregava em seu estojo infestado de materiais . Quem fazia o pedido – que soava quase uma ordem - era o colega mais popular da sala. Jamais tinham contato fora destas situações.
Na verdade, era o único motivo que fazia alguém chamar pelo seu nome naquela classe. Talvez, não fosse pelas notas divulgadas com ênfase pela professora e pelos seus materiais emprestados nem o lembrariam. Quando não por uma destas duas razões seu nome entrava mesmo em desnecessidade de ser chamado.
-Equipes de cinco pessoas - anuncia a professora, para preocupação de Dudu. Os grupos bem previsíveis daquela turma se formavam já que quase espontaneamente. Dudu podia adivinhar as formações, assim como prever que ele não cabia em nenhuma delas. Não que não quisesse participar, mas era exatamente o contrário. A única coisa que aprendera sobre grupos naquele tempo é que ele ficava fora deles.
Eduardo era um exemplo da sala. O primeiro aluno. Em casa o centro de atenções "Só tira dez!" exibia-o aos amigos o pai nos fins de semana embriagado mais de orgulho do que da própria cerveja. Mas Dudu só não entendia porque não agradava aos de sua idade. Talvez por culpa de alguns garotos que o judiavam com apelidos. A professora então, o defendia “É apenas um menino inteligente!” Inteligente era um tipo de criança distinta que prestava atenção na aula, que não jogava bola e nem falava palavrão. Mas apesar disso ele era um bom amigo, um menino legal, imaginava consigo. Só que ninguém tinha descoberto ainda.
-Dudu vai entrar na equipe de vocês, ok? - A professora resolveu enfim, fazer o que ele já esperava.
Aproximo-se daquela equipe que estava, até então incompleta. Se antes, estava distante de todos calado, agora permanecia próxima aquele grupo que acabara de entrar. Mesmo que fosse para continuar calado.
Chegava o horário do intervalo, conclui ao consultar seu relógio. Todos os dias planejava como ocupar aqueles exatos trinta minutos. Tiraria algumas dúvidas da lista com a professora, mais algum tempo para o lanche, calculava. A preocupação era para não restar tempo desocupado em que houvesse chance de se sentir só durante o intervalo.
Neste tempo então, Dudu aprendeu que não bastava ser um bom menino para fazer amizades, tinha que ter também o talento de saber ser reconhecido. Aprendeu que não basta estender mão para ganhar a gratidão. Aprendeu que fazer amigos era como resolver questões de MMC. Requer prática. E aprendeu que é estando sozinho que mais se aprende essas coisas complicadas sobre amizade.
O toque do sinal era acompanhado pela movimentação brusca das carteiras e pela fidelidade de Dudu à mesa da professora.
-Tia, você pode tirar algumas dúvidas da minha lista?
Neste tempo, Dudu também aprendeu a gostar de matemática.

Marcadores: , , ,