segunda-feira, abril 18, 2011

Amor Proibido - II


E quando muito queria lhe dizer algo, fazia silêncio. Assim, ele se inventou dentro de mim, por mais que tentasse reprimi-lo. Meu silêncio declarou meu amor mesmo quando eu ainda tinha medo. Meu silêncio lhe recitou versos antes de eu começar a tentar a poesia. Meu silêncio balbuciava o seu nome, mesmo quando você não estava por perto. Mas meu silêncio ficava ainda mais engrandecido quando eu falava com você. Estranho? 
Quando agente conversava, eu também estava fazendo silêncio.

Fernando Palma


Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas.


Texto publicado originalmente em Junho de 2005


Marcadores: , , , , , ,

quinta-feira, março 24, 2011

Abraço

Texto originalmente escrito em 04/09/05






É que a melhor forma que encontrei de receber abraços foi os dando.
É preciso acreditar em abraços para que eles realmente existam em sua vida. É preciso acreditar neles para enxergá-los. É preciso enxergar não só os abraços compostos de braços mas também os abraços de palavras. É preciso aprender também a enxergar os abraços em silêncio. Com tempo você descobre como abraçar, embora algumas pessoas simplesmente não aprendam. Se uma pessoa não te abraça da maneira que você espera não significa que ela não esteja te abraçando. Abraço também requer habilidade. É preciso ensinar a abraçar para ser abraçado. É importante aprender diversas maneiras de abraçar quem você gosta. Fica muito mais divertido. Até que chegue o momento que se permita implementar um forte abraço com os braços mesmo.


Todo dia alguém tenta te abraçar e você nem percebe.




Fernando Palma





Ps: Este texto é uma homenagem a amiga Princess. E é , também, um abraço.


Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas. 





Marcadores: , , ,

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Verdade

"gosto de indiretas, entrelinhas e subtextos.
a verdade não é explícita."


Eduardo Baszczyn

Marcadores: , , ,

terça-feira, novembro 23, 2010

Amor Proibido - VI

Deixo sua lembrança me amanhecer. Abrevio sua face à cabeceira da cama. O dia já não é um qualquer, chega com maior riqueza de significados e até o silencio parece querer me dizer algo. É uma agressão tentar não pensar em você. Infantilizo sentimentos pela manhã para brincarmos de nos desejar pela tarde. As mãos dos meus olhos corrompem distâncias para tocar o seu corpo, ultrapassam qualquer lei existente na física, meu suspiro é minha voz sonolenta tentando te dar um bom dia. Esqueço o relógio, o tempo que você mora dentro de mim não pode ser medido por minutos, o tempo que eu te esqueci foi só uma maneira de te amar mais. Excedo-me para pagar os desejos atrasados, quero te confessar as mais reprimidas vontades que me tomaram de vez em quanto, por todos esses anos. Eu estou atrasado na sua vida, mas estou na sua vida. E agora não somos mais reféns do que aconteceu, somos donos do que estar por acontecer.


Fernando Palma


Ps: texto de setembro de 2006.






Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas. 

Marcadores: , , , , , ,

segunda-feira, outubro 26, 2009

Rascunhos


Desenhei palavras vazias. Corri três rascunhos, parei ofegante. Revisei imaginação, aparei as pontas dos dedos, fiquei tentado encontrar uma maneira de emendar poemas.
Tomei estrada, dirigi textos sem rumo, além do horizonte de dentro de mim. Apertei acelerador, atropelei uma saudade que atravessava a rua. Passei para visitar um rascunho antigo, a casa tava imunda. 
Notei um poema semeando na mão direita, animei a esquerda, curvei as costas dos braços, puxei o teclado tentando fazer germinar. Rabisquei um grito, confundi o inicio, briguei com a segunda estrofe, apanhei de uma antítese, sai para procurar uma analogia melhor. Irritado, memorizei a origem da inspiração para saber exatamente onde não voltar a consultar. 
Tentei hidratar algumas idéias secas guardadas na gaveta, procurei por palavras potáveis. Caminhei em círculos por versos, fiquei tonto, mas não parei. Senti fome, fritei alguns pastéis em Mario Quintana.
Falei a um amigo sobre aquela questão emendar poemas, ele sorriu e mudou de prosa - notei algumas ameaças metafóricas cintilando no enredo da conversa dele, mas não acho que ele tenha percebido. 
Voltei para as palavras vazias. Reli o esboço, inverti o inicio, assassinei dois pensamentos covardes, motivei paradoxos, entortei as linhas, escorreguei na terceira estrofe, colidi na conclusão, bruscamente. Quase um acidente fatal. Fui sentindo uma certa falta de organização, desordem de idéias, mudança de ritmo. Uma bagunça.
Comecei a gostar.


Fernando Palma


Ps:Escrito em Outubro de 2006
Obs: a reprodução dos textos é permitida contanto que haja devidas referências.Todas as produções são registradas. 

Marcadores: , ,

quinta-feira, outubro 15, 2009

Pedaços de Histórias - II

Nuvens
Provou um pequeno pedaço, mas foi o suficiente. O açúcar ficou grudado no céu da boca, enlambuzado. Com quatro anos, mal aprendera a falar, mas se pudesse escrever, produziria poemas para refletir tal sensação.
A mãe só deixava doce nos fins de semana, mas nos outros dias, as nuvens que passavam no fundo da casa nuca mais seriam as mesmas. Pois ele sempre as olharia sorrindo de vontade, imaginando, como seria, comer um algodão-doce daquele tamanho. 


Paixão
Era uma sensação nova, estranha. Sonhava de dia, se acordava a noite. A felicidade exagerada. Sentimento bom. Amor sem planejar, simplesmente aconteceu. De surpresa. Não esperava apaixonar-se tão facilmente por ela mesma. 

Infância
Observava o pai, sentado com o jornal na mão. Observava-o sem intenção, apenas para usar o momento em algo. Feliz ou desiludido, tentando adivinhar o que lia. Ou  talvez apenas estivesse esperando que o pai cansasse de ser um adulto e voltasse a ser criança. Para ele ter com quem brincar.







Marcadores: ,

terça-feira, outubro 13, 2009

O ponteiro invisível do tempo - II

Escrito em Janeiro de 2006




Repetia as mesmas palavras com poucos tropeços. Encorajava a si mesma, de uma coragem medrosa. Era só um recomeço. O silêncio das fotografias espalhadas no quarto somava o frio, que a desconfortava sempre neste instante, começo de noite. Não importa o tempo lá fora, o frio era sempre o mesmo.

Já não era mais uma menina. A juventude começou a desgastar as cores, as luzes perderam a intensidade. Sobraram apenas frestas de esperanças adolescentes, enfraquecidas pelas datas, quando completam novos aniversários. Pequenos brilhos. Restos, que na maioria das vezes, nunca conheceram sua forma completa. Metades de sonhos, solitárias, que não ousaram ensaiar finais para princípios de desejos, envergonhados por desrazões maiores. As coisas são quando há de ser, dizia vó. Mas o que será que há de ser, agora? O caminho não parece ruim, é verdade, mas falta força ao caminhar, pés já não seguem descalços sem que machuquem. Tudo fere. Os joelhos doem, de dor do coração. Sentada em sombra de aflições, soava uma canção aguda de suspiros breves, enquanto folheava saudades borradas em cadernos antigos, aposentados por invalidez do tempo. Rascunhos de amores. Ela tecia novos sonhos nos cantos dos olhos, apenas nos cantos, enquanto juntava seu corpo para tentar escapar de um frio que insiste em seu quarto por mais cobertores usados, ou maior número de agasalhos que sejam vestidos. Porque é um frio que vem de dentro.


Marcadores: , , ,

sábado, maio 12, 2007

Baseado em Personagens Reais - I


Há anos ela está escondida nela mesma. Como quem estivesse vestindo agasalhos, um por cima do outro. E óculos de sol, chapéu, calças, luvas, capas de chuva até os pés, botas acovardando as canelas. Ela mal pode ser vista. O tempo corre em volta dela, e seus gestos e expressões presos na muralha já não a traduzem como antes, apenas avisam que há alguém ali. As vezes, eu a provocava com histórias antigas, tentando lhe arrancar pra fora, mas respondia com um personagem tão estranho no olhar que me fazia sorrir de medo. Então, mantenho esse meu eterno papel amigo-paterno de desvendá-la mesmo sem ser este o meu papel. Aperto os olhos, forço poder de ver atrás dos casacos, das mascaras acostumadas, luvas de frio-psicológico, capas pretas. Melhor, escuras. O corpo preso, colado, acomodado ao meio, a visão se confundindo nas lentes opacas. Ninguém nem lembra mais a cor de seus olhos. Ela está escondida em si há tanto tempo, que há quem pense que é uma pessoa infeliz. Mas não é. Está apenas afastada da felicidade por um tempo, de férias. Economizando. Guardando o melhor dela mesma, e observando atenta, e esperando, preparando, ansiosa, determinada. Uma determinação tristemente incrível. Ela está escondida em si, e aguarda por uma oportunidade, um sonho, um lugar, um momento. Um alguma-coisa-que-acontecerá que ela sabe que tem direito, mesmo sem saber o que. Um alguém, mesmo sem saber quem é.

Fernando Palma, Maio de 2007 

Ps: Participação - correções e critica - da querida amiga Deniela Bridges.

Marcadores: , , ,

domingo, maio 06, 2007

Cotidiano - I


http://populo.weblog.com.pt/arquivo/casa1024.jpg

Acordou as nove, mas não olhou que horas eram. Vestiu o agasalho estendido na cadeira, nem fazia frio. Fez café sabendo que não iria tomá-lo, ninguém iria tomá-lo. Apenas fez.


Correu a casa verificando o silêncio, uma paz indesejada, cumprimentou as paisagens que pulavam pelas janelas.


Saiu à praça para encontrar com algumas árvores, vigiava as folhas e os sapatos das pessoas, atravessava o tempo com a imaginação. Caminhou pela calçada, passou pelo o lago, passou pelo o lago, caminhou pela calçada. O quarteirão de tão pequeno parecia sufocá-lo.



Os vizinhos roubavam-lhe de sua privacidade. Atrapalhavam sua tristeza. Permaneceu incolor, atrás dos óculos. Tropeçava em vozes, editava histórias que escutava nas esquinas. Aquele lugar é próprio à história alheia.


O vento o ajudava a caminhar, seguia com pouca pressa. Nem se preocupou em olhar para os dois lados ao atravessar a rua. O mundo só atropela o que está em evidência.


Visitou bares e copos de cerveja. Tomava uma garrafa a cada parada, exatamente uma garrafa, nada mais consumia. Voltou pelo mesmo trajeto, pouco antes das seis. Não conseguiria suportar o peso da noite.


Deixou o portão entreaberto, a espera de ventos.


Preparou o jantar, comeu apenas o suficiente, dispensou o banho. Deitou no sofá para escapar da cama vazia. Adormeceu antes que o próprio sono.


Fernando Palma

Marcadores: , , , ,

segunda-feira, outubro 10, 2005

Baseado em e-mails reais - III

Estranho seria se eu te escrevesse somente verdades, até a sinceridade se confunde. Queria poder te enviar as mais sinceras verdades que guardo aqui dentro, mas eu descobri que sou mais forte fora de mim. Difícil escrever de amores. Para seguir em certos assuntos é preciso saber exatamente o caminho de volta. Quem dera mudar para um lugar onde eu pudesse inventar lembranças, seria bem mais divertido. Aqui o tempo se torna um juiz injusto, condena-me das memórias que se apegam ao que não aconteceu. Condena-me pelos pecados que deixei de cometer. Condena-me. Não tirei lições do que vivi, aprendi mais com quem eu não fui. Estou rompendo todos os contratos que não fiz, assino em baixo para me libertar de compromissos. Declaro morte às mentiras antigas, temo que elas sobrevivam ao tempo - mesmo sabendo que as que mais me incomodam são também as mais difíceis de me desapegar. Eternas sobreviventes -. Uma mentira-antiga sobrevivente já é uma nova verdade por costume, entenda. Mentir para si é tentar enganar alguém que sabe mais de você do que você mesmo. Cansado, vivo em um silêncio distante. É nessas noites vazias que posso escutá-lo barulhar com intensidade. Ouça. A noite de uma segunda-feira é um dia completamente vazio. Você irá achar que é não dando atenção que se derrota o silêncio, mas não é. Ignorar o silêncio ainda é permiti-lo. Não tenho medo, vejo as voltas compondo o mundo agora, antes só via o contrário. Acho que não ando encontrando novos amores, mas me repetindo neles. Porque amar nada mais é do que uma repetição de sonhos, porque não há amor maior do que repetir um mesmo amor, porque esses nossos amores idealizados nada mais são do que amores próprios em potencial. Sinto-me bem, agora, meu corpo reaprendeu a desgrudar do chão, já piso em superfícies mais altas sem temer a passos em falso. Não me assustam as quedas. Quando desejamos muito algo a margem de erro é como um percursionista da banda, quem deseja presta mais atenção no vocalista. Não quero me prolongar, está tarde e o sono é um sujeito exagerado, tem um péssimo costume de aumentar tudo o que vê. Só preciso achar um significado para completar um silêncio, entenda. Algo que me faça esquecer tudo que ele não me diz, uma ausência de significado fantasioso, uma explicação para uma falta de sentido - acho que esse silêncio queria mesmo de se tornar palavras, mas ele tem medo de se escutar.

Marcadores: , , ,

segunda-feira, setembro 26, 2005

Baseado em e-mails reais - II


Baseado em minhas correspondências com Leila.

A dor do que não vivemos nos invade como veneno, no início incomoda um pouco, até chegar ao ponto que não resistimos mais. Os álbuns antigos colecionam espaços em branco das fotografias que ainda não completei. A trilha que leva à felicidade é longa, aí inventamos receitas de caminhos curtos que nos curem de desesperos com doses sazonais de infelicidade-saudável. O comodismo é nosso médico. Há perigos nas estradas, L. Não é algo simples seguir por estes caminhos. Sou uma pessoa que se perde com facilidade, ando desencontrado tentando adivinhar exatamente onde não devo parar. Meu andar era apressado, veja que desperdício. Inocente, cheio de sede de chegar ao desconhecido, escolhendo superfícies rígidas que me traziam um conseqüente caminhar depressa. O olhar para trás me tomava essa sensação vazia de que não deixara minhas pegadas, por maior que fosse a firmeza no pé. Eu me tranquei. Construí abrigo em lugares isolados na beira dos caminhos. Sobrevivi. Um dia, destruí o abrigo e suspirei um novo rumo. Tem certos momentos na vida que você tem que se desfazer do que construiu ou viverá para sempre em pequenos lugares isolados. Sim, sim, a solidão também acostuma, L. Parar é regredir. Não fique triste se enxerga estas coisas ruins, nós temos que viver o lado errado para ter certeza que não vamos querer fazer parte dele. Com o tempo você aprende que ou você tenta ensiná-los a ser feliz ou corre o risco que eles te ensinem a não ser. Eles cortam suas asas e te pedem para voar. Não os culpe, agora. Quando a gente quer bem a alguém acabamos por lhe fazer mal de vez em quando, olha só que engraçado. Não tema o que deseja, não há o que dar errado quando seguimos o que realmente queremos. Não me importo mais agora, desaprendi meus destinos e sei que tenho caminhos onde possa afundar meus pés e deixar um olhar atento ao que passa por eles. Já posso ver os pôr- dos- sóis, os olhares felizes, as pessoas e até estes abraços de palavras que caem em sua caixa de e-mail nos meados de noites pacatas de semanas comuns. Não fujo dos tempos ruins. Existem tempestades, não nego, mas vejo sonhos se diluírem em pequenas nuvens. Sim, sim, a gente aprendeu a temer temporais quando vê um simples céu nublado, L. Hoje eu queria ouvir as crianças porque sei que elas sabem como brincar na chuva. Eles não conhecem as virtudes dos jovens. Eles nos enganam de seus próprios enganos, nos fazem não acreditar no que fingem que não acreditam. A vida é um jardim, o desejo é o jardineiro. Razão não deve inibir felicidade. Eles nunca vão entender. O único lugar que se pode ir além é dentro de você, L. Desejar é ter razão.


Marcadores: , , ,

domingo, setembro 11, 2005

O tempo e os sonhos - II

Cansei de ter medo. O medo é fiel a quem foge dele, é na coragem que o medo se desespera. Hoje eu queria ir além. Não me pergunte onde, às vezes desejamos algo com muita intensidade mesmo sem saber exatamente o que. Preciso me superar para continuar o mesmo. Deve haver algo a mais, mais distante, mais intenso, mais vivo. Mais. Não sei explicar. É como alegria de viver de um menino pequeno, o mistério do universo, a coincidência do toque do telefone quando mais o espera, o pavor da morte, o sorriso no canto dos olhos dela. Chega. Não vou falar de amor. A forma que eu amo estas metáforas, analogias e artifícios literários ainda não alcançaram. Também não é amar que desejo agora. É mais. Preciso de diferença. De uma maneira. De sonho. De. Não é loucura, loucura maior é optar pelo comum. Deus, será que o sonho é uma realidade subestimada? Será a realidade um sonho acostumado? Não sei mais distinguir o que existe ou não. O que existe também engana e há mais desculpas esfarrapadas andando por aí do que respostas. Eu fiz um caminho. Cheguei. E agora? Não há nada a desejar que não possa ser alcançado. O que a gente passa muito tempo desejando já é um pouco nosso sem que a gente perceba. Quero mais. E não quero pouco, nem moderado. A intensidade é a moderação da felicidade. Quero estrelas, quero vento, quero nuvens, quero um final que compense a quem lê estas linhas que não falam nem disto, nem daquilo, nem de nada. Mas o que desejo agora também não faz sentido. Hoje eu queria ir além.

Marcadores: , , , , ,

sábado, agosto 27, 2005

Amor Proibido IV

É uma desordem dos tempos. Simples assim: hoje nós seríamos mais felizes no que nos faltou ontem. Mas o agora é nosso passado próximo que ainda não enxergamos, indeterminado. Eu não fui tão errado, nós não estamos tão errados, não escolhemos o tempo errado, o tempo também nos escolhe. Qualquer tempo é um início a menos que se deseje seu fim. Nós poderíamos até esquecer tudo isso que passou e eu ficava aqui brincando de ter treze anos e voltar a descobrir, lentamente, todos os seus traços que perseguiram os meus sonhos adolescentes. Então eu assistia todo esse filme recomeçar em algum lugar desconhecido entre seus olhos e o cinema que existe dentro destes - os meus. Perdoe-me se não escrevo nossa história como você acha que você teria escrito. Interpretar é isso, é acreditar. Você não entende porque acreditei em você, mas eu não acreditava era em mim. Eu te interpretei e fui culpado por essa inocência. Mas eu tinha mesmo que ter te perdido completamente para não ter que passar a vida inteira me cobrando que te perdi por pouco. Eu não fui forte. Forte como agora, como um pouco antes de agora, exatamente no instante que você me procurou. Depois daquele instante, meu corpo se desgarrou de um chão onde eu tinha me prendido nos últimos anos. Prendido tanto que já desconhecia a possibilidade de cortar minhas raízes dele. Eu quase voei. As sensações que me seguiram depois já foram bem diferentes - algumas foram carregadas de uma felicidade-infantil, outras vezes um pouco mais escuras e com uma dose moderada de tristeza justa; mas foram todas descendentes daquele mesmo instante -. Eu sei que você tem um medo escondido de me machucar, mas esquece que eu te entendo perfeitamente. Eu me desespero no seu equilíbrio-irresponsável. Nossa compreensão abastece minha capacidade de enxergar, mesmo tão distante, as respostas na profundeza de seus olhos. Se tirassem música de nossas conversas daria uma melodia suave. E o meu desejo de concluir nosso passado a escuta, em silêncio.

Agora, a minha sede de dias alegres disputa com essa distância cretina e uma razão inocente que você acha que afastam nossos caminhos. E eu fico aqui tentando lhe enviar poesias por nuvens e decifrar os seus próximos passos - que são leves como a sua voz ao telefone - enquanto o destino, senhor dos amores, brinca de fazer o tempo zombar de sentimentos.


Marcadores: , , , , ,

sexta-feira, agosto 12, 2005

Palavras Mudas - IV

Mais algumas curiosidades da linguajem não verbal

1)Um sorriso sincero nasce dos olhos. A boca acompanha.
2)Mãos falam.
3)A intimidade de um abraço não deve ser medida pela força dos braços, mas pela superfície de contato dos corpos.
4)Não é verdade que calar significa consentir.
5)Não se conhece profundamente uma pessoa pelo que ela fala, mas pela expressão que acompanha o que ela fala.
6)"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação"Mario Quintana

Marcadores: , , , , , , ,

domingo, agosto 07, 2005

Palavras Mudas - III

O que nos faltou aprender sobre o outro? Não foi falta de entendimento que nos distanciou, foi o medo de entender. Nossos olhos entendidos, nossos corpos entendidos. O que a gente entende com o corpo não se traduz, seria mentir. Nós nos sobrecarregamos de traduções mal mentidas. Eu não te conheci pelas coisas que você me dizia, mas pelo desenho dos seus olhos que acompanhava tudo o que me dizia. Meu erro foi não ter descoberto antes que a verdade também estava na recíproca. Eu me atrasei com você, me perdoe. Eu te transbordei de palavras nos momentos que mais cabia meu abraço ao som do mesmo cd que sempre gostamos de ouvir juntos. E te abracei sem saber o que dizer quando você queria escutar, essas mesmas coisas para as quais sempre inventamos tantas mentiras. Depois da primeira vez que eu te abracei parece que meu corpo sofreu um impulso químico e absorveu um pouco da sua temperatura morna. E se habituou com esse aquecimento que ainda vive dentro de mim. Agora sofre crises de abstinência quando dá por sua falta. Se eu calasse não iria te ferir, me enganei. Nossas mentiras, na verdade, eram tentativas quase bem sucedidas de não nos machucar. É uma pena. Nós acabamos aprendendo a escutar nossas palavras mudas.

Coloco, agora, novamente o cd no som do meu carro até me dar o impulso de desligar na faixa que você sempre pedia para repetir. Não ponho outra. Deixo que o som e seus vestígios que insistem em morar dentro do meu peito, ambos, se calem. Nossas partes sobreviventes no corpo um do outro estão mesmo condenadas a este meu-seu eterno silêncio, ensurdecedor.

Marcadores: , , , , ,

quarta-feira, agosto 03, 2005

O vício


Nunca bebeu. Sempre teve horror a cigarro. À medida que o tempo passava ficava cada vez mais contra a qualquer tipo de vício. Foi surpresa da família quando parou de comer carne vermelha. E cortou mais ainda a alimentação. Era quase um naturalista. Quero estar livre de porcarias, dizia. Só tomava sol antes das dez, em horário recomendado. Começou a mudar ainda mais. Proibiu doces em casa, sorvete, biscoitos, guloseimas. As crianças reclamavam. Começou a regular o vídeo- game do mais novo e a internet da mais velha. Tinha pavor a vícios. Era contra jogos. Proibia baralhos em casa, dominó. Tinha horário certo de assistir tv. Parou de usar ar– condicionado, leu que fazia mal. Parou de ler todo dia, pra não viciar. Á noite então, ao deitar começava a se sentir estranho. Começou a perder o sono, algo o incomodava. Uma sensação diferente, preocupante. Trocou o café pelo suco, o açúcar pelo adoçante. Mas a insônia lhe persistia. E aumentava a cada noite. Perdeu o vício de dormir à tarde, assistia menos à novela, tinha hora certa de ir pra cama. Parou de comer de noite, ouviu dizer que fazia mal. Parou de tomar refrigerante-diet, por causa da cafeína. Mas aquela sensação não foi embora, e o deixava acordado. Mexia-se na cama, perdia a concentração. Mudava de posição, mudava de travesseiro, nada adiantava. Trocou o suco pela água, parou de sair à noite de Sábado, mesmo a esposa sendo contra. Parou de vez de assistir novela. Depois já não assistia mais tv. Até o rádio pouco escutava. Perdeu todos os costumes ruins. Mas algo ainda o incomodava, e tirava seu sono. De madrugada pensava no que havia de errado, inquieto na cama. Tinha algo que o deixava aflito. Não sabia o que era. Tudo estava em ordem, pensava. As contas estavam em dia. Era um exemplo de pessoas saudável. E o melhor de tudo: não tinha nenhum vício. Era o seu maior orgulho. Homem livre de vícios! Mas ele não percebia é que lhe restava sim, um grande vício. Um único vício, que nunca perdia. E estava o matando. O vício de se preocupar com tudo.

Participação especial na adaptação deste texto do amigo Esdras Barrteo.

Marcadores: , , ,

quarta-feira, julho 20, 2005

PARE


Sou uma pessoa que se perde facilmente, por qualquer lugar por onde ande. Talvez seja por isso que meu corpo tenha aprendido a criar atalhos, fazer caminhos alternativos, imprevistos. Às vezes encontro destinos que jamais imaginaria alcançar, tomando estas direções diferentes. É impressionante como as pessoas insistem em querer orientar os meus rumos. Não desprezo conselhos, os aprecio. Mas não me obrigue a parar onde não quero. Não tente regular meu ritmo. Não me diga que tenho que seguir à esquerda. Sou destro, esqueceu? Não me envie infrações, eu irei recorrer. Não tente adivinhar por onde eu passei, nem encontrar onde devo ir. Não se importe se eu sigo a trilha errada agora: meu caminho é longo e o vejo mudar o tempo inteiro. Cada um deve aprender a desconhecer a própria estrada de sua vida.

Orientação correta em excesso só confunde. O essencial é seguir.


Ps: Depois do incentivo de meu grande amigo Rodrigo e algumas adaptações decidi postar este novamente.

Marcadores: , , ,

terça-feira, junho 07, 2005

Não importa

Confesso que sou um pouco distraído, mas também não me importo. Nunca quis me desfazer disso, me distraio da minha própria distração. Faço pouco caso do próprio descaso. Sou assim. Quando vou para o trabalho pela manhã, se vejo que tenho tempo procuro o caminho mais longo e engarrafado, que me exige menos atenção para dirigir. Fico escrevendo alguns textos dentro de mim no caminho, ou continuo sozinho aquelas conversas que comecei com alguém no fim de semana. As pessoas acham que estou desatento. Eu estou sim, atento, mas não ao mesmo que elas. Nem sempre o que interessa aos outros é o mesmo que me causa interesse. Nem sempre o que preocupa a todos é um motivo justo de preocupação para mim. Aqui em casa se irritam comigo quando deixo a janela do quarto aberta enquanto estou no computador, acham que o vento pode estragar à cortina. Eu não entendo tanta irritação: talvez o calor que esse apartamento faz tenha estragado com a calma de minha família nestes últimos anos. Corro para abri-la novamente quando ninguém está mais olhando, evito que o mesmo aconteça comigo. É eu ou ela. Meus amigos acham incrível o fato de que eu não me preocupo com nada. Não é isso. É que minha preocupação é bem diferente.

Marcadores: , , ,