quinta-feira, outubro 06, 2005

Palavras Mudas - V

O ruído do ar-condicionado era impróprio ao silencio apreensivo do carro. Ele apenas aguardava as palavras dela, como quem aguarda uma sentença. Esperou. Esperou. A falta de diálogo aumentava seu incomodo, mas nada disse. O momento despertava insegurança, mas conteve a emoção em algum lugar incerto entre a garganta e o peito. A ausência de palavras dela o confundia. Os olhos que ele aprendera a desvendar carregavam uma paz incompreensível, pensou. Ela o tocou. Delicadamente, para somar surpresa. Respirou sem pressa. O olhou sem medo. E juntou à face uma daquelas expressões femininas indecifráveis, indescritíveis. Não era raiva. Mas também não sorria. Ele apenas continuou assistindo aos seus movimentos, tranqüilos. No fim de alguns segundos ela voltou a se mexer. O beijou, com sutileza. Na face. E saiu do carro calmamente ao invés de falar algo, virou de costas em vez de dizer adeus, encostou a porta em vez de batê-la. Ele continuava imóvel. Calado. E já não era mais forte o suficiente para esconder a emoção. Como poderia agir dessa maneira, como se nada estivesse acontecendo? Neste instante, só lhe restava observar, pela ultima vez, o andar lento dela até a porta de sua casa, o mesmo de sempre. O beijo tinha sido a despedida.

Era um fim de tarde cinza de domingo, a rua estava vazia, o vento forte anunciava a previsão de chuva para o começo da noite. Antes de dar partida ao carro e inundar seus olhos, ele pensou alguns minutos consigo. Nunca se sentira tão agredido em toda sua vida.

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sexta-feira, agosto 12, 2005

Palavras Mudas - IV

Mais algumas curiosidades da linguajem não verbal

1)Um sorriso sincero nasce dos olhos. A boca acompanha.
2)Mãos falam.
3)A intimidade de um abraço não deve ser medida pela força dos braços, mas pela superfície de contato dos corpos.
4)Não é verdade que calar significa consentir.
5)Não se conhece profundamente uma pessoa pelo que ela fala, mas pela expressão que acompanha o que ela fala.
6)"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação"Mario Quintana

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domingo, agosto 07, 2005

Palavras Mudas - III

O que nos faltou aprender sobre o outro? Não foi falta de entendimento que nos distanciou, foi o medo de entender. Nossos olhos entendidos, nossos corpos entendidos. O que a gente entende com o corpo não se traduz, seria mentir. Nós nos sobrecarregamos de traduções mal mentidas. Eu não te conheci pelas coisas que você me dizia, mas pelo desenho dos seus olhos que acompanhava tudo o que me dizia. Meu erro foi não ter descoberto antes que a verdade também estava na recíproca. Eu me atrasei com você, me perdoe. Eu te transbordei de palavras nos momentos que mais cabia meu abraço ao som do mesmo cd que sempre gostamos de ouvir juntos. E te abracei sem saber o que dizer quando você queria escutar, essas mesmas coisas para as quais sempre inventamos tantas mentiras. Depois da primeira vez que eu te abracei parece que meu corpo sofreu um impulso químico e absorveu um pouco da sua temperatura morna. E se habituou com esse aquecimento que ainda vive dentro de mim. Agora sofre crises de abstinência quando dá por sua falta. Se eu calasse não iria te ferir, me enganei. Nossas mentiras, na verdade, eram tentativas quase bem sucedidas de não nos machucar. É uma pena. Nós acabamos aprendendo a escutar nossas palavras mudas.

Coloco, agora, novamente o cd no som do meu carro até me dar o impulso de desligar na faixa que você sempre pedia para repetir. Não ponho outra. Deixo que o som e seus vestígios que insistem em morar dentro do meu peito, ambos, se calem. Nossas partes sobreviventes no corpo um do outro estão mesmo condenadas a este meu-seu eterno silêncio, ensurdecedor.

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segunda-feira, julho 18, 2005

Palavras Mudas - II


Algumas Vantagens da Linguagem Não-Verbal

1) Um beijo dispensa explicações.
2) Um sorriso economiza elogios.
3) Um olhar nunca mente, se engana ou se arrepende.
4) O silêncio não tem limites de vocabulário.


Uma Desvantagem

Nos desperta um desejo inútil de traduzir em palavras.

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sábado, julho 09, 2005

Palavras Mudas

Olhou-me,
Como se não compreendesse.
Num ritmo lento
De respirar.

A respiração dela desregulava a minha.

Tentou me agradar.
Tentou dizer algo.
Me abraçar.
Carregava uma tristeza no olhar.

Eu nuca vira tristeza tão bela.

Tentei lhe falar.
As palavras não vinham.
Forcei-as,
Não consegui explicar.
Não queria explicar.
Então silenciei.

Ela sempre entende meu silêncio.

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