Sábado, Agosto 25, 2007

Enciclopédia Poética – I


Ansiedade

É quando relógio do tempo se atrasa em relação ao seu.


Fase Adulta

É quando as crianças começam a brincar de ser gente grande. A maior parte delas brinca compulsivamente e acaba se viciando.


Saudade

É um poema pequeno, bem pequeno. Tão pequeno que tem apenas uma palavra.

Dica: Se desejar, faça o teste, envie este poema para alguém.


Amor

É uma doença ao contrário. Quem pegou, não tenta se livrar do vírus e sim contagiar. Se você sente algum sintoma, contagie a pessoa o mais rápido possível. Adoecer de amor sozinho pode ser maligno.



Domingo, Julho 15, 2007

Destinos Turísticos Secretos


Tudo que você precisa saber para chegar aos lugares que sempre desejou.


Infância

Vista algo leve, pegue o primeiro balão mágico que passar perto de você, siga o rumo dos arco-íris e das nuvens mais engraçadas que encontrar. O caminho é longo, leve algumas jujubas para o caso de sentir fome. Tente não se preocupar com o lugar que está indo, ou que dia irá chegar. Quando realmente não estiver preocupado com absolutamente nada, parabéns, você chegou! Vá logo visitar as escorregadeiras, balanços, gangorras e outros pontos turísticos. Não se assuste com algumas gotículas mornas caindo do céu, não é chuva. São algumas bolas de sabão que vivem estourando por lá.


Amor

É uma viajem mais radical, opção boa para os aventureiros. As pessoas que chegaram lá ficaram muito felizes ou muito tristes. Portanto, se você não gosta de correr riscos, desista. Não acredite nesses mapas que vendem por ai prometendo levá-lo rapidamente, é todo lorota. Escolha a companhia certa, colha algumas flores, decore sua casa antes de partir, seu corpo. Compre uma vasilha grande para aguardar as lagrimas caso a viajem dê errado (eu falei que era arriscado). Mas vale a pena, dizem até que quem não o conhece, morre solitário. Sim, bem polêmico. Não esqueça de levar alguns dvds de comédias românticas, laços para embalar presentes, pipoca, vinho, e boa sorte.


Inocência

É o lugar mais contraditório de todos: só está nele quem não sabe disso. Portanto, desconfie sempre. Quem diz que está lá, não está. Da mesma forma, se você está tentando chegar a inocência, é porque já esteve e nem sabia. Não tente entender demais, passe para a próxima viajem.


Sonhos

Existem muitos lugares com este nome, por isso está no plural. Cada viajante tem seu predileto. A estrada é sempre ruim, cheia de quebra-molas, buracos e precipicios. Use pneus bons ou sapatos resistentes se for a pé. Não se incomode com as dificuldades, a demora é o segredo desta viajem: para quem alcança facilmente, o lugar simplesmente some do mapa. Isso mesmo. Os sonhos são uma espécie de lugares-mágicos e tem um monte de outras características inexplicáveis, sobrenaturais. Nem todos acreditam que ele(s) realmente existe(m). Você que gosta de magia, não pode perder.

Sexta-feira, Julho 06, 2007

Pequenos Poemas - III


Razão x desejo


A razão é imprecisa,

abstrata.


O desejo é indiscutível

e absoluto.


Quem deseja, sempre tem razão.



***



O caminho


Passou a vida


seguindo regras

e receitas

para alcançar a felicidade.


E fracassou.


E, enfim, foi feliz.



***



Dúvida


Ou você ama,

ou não ama.


Não há meio termo.


Ignorar que se ama,

ainda é uma forma de amar.



***



Sonhos


Aos doze

queria abraçar o mundo.


Os anos passaram

e ele continua com doze.



***



Onde existo


Meu endereço é relativo.


Não me procure

onde estou.


Vivo mais

onde quero ser.



Sábado, Junho 30, 2007

Perfil - I


Ela derrota a felicidade pelo cansaço.

Confunde desejo com pecado,
alegria com loucura.

Erra consigo para não errar com os outros.
Culpa os outros
por errar consigo.

Sonha acordada,
se acorda sonhando.

Não acredita em expectativas,
ilusões.
Não acredita em destino,
compromisso.

Olha pros dois lados antes de atravessar suas vontades.
Refuga.
Não decide, pede opinião.

Fecha a porta de sua alma todos os dias,
no mesmo horário.
Espia pelo buraco da fechadura.

Abre a janela,
se esconde atrás da cortina.
Sorri na sala,
chora no quarto.

Deseja chances que já tem.
Teme impedimentos que não tem.
Ignora a saída, esquece onde entrou.

Não se entrega ao amor,
espera que o amor a tome.


A noite, usa a coberta como quem veste um escudo.




PS: Texto antigo transformado em Poema.

Não

Texto de Eduardo Baszczyn

"olhando o quarto, entre os cabelos caídos sobre o rosto, ela procura os comprimidos. pelas gavetas. nos armários. descalça, pés pretos, ela agora desobedece. contraria a infância higienizada e protegida. a meninice desinfetada. de chãos limpos. pisos brilhantes. cheiro de pinho. a vida de regras. de pode-não-pode. de coisas proibidas. a vida de nãos. não solte as tranças. não fale com estranhos. fique longe das tomadas. não deixe comida no prato. não suje o vestido. não fale palavrão. não caia do balanço. não ouça música alta. leia apenas os clássicos. não bata no seu irmão. só coma coisas verdes. não trepe sem casamento. não use drogas. não responda seus pais. respeite seus professores. não beba gelado. não saia sem blusa. não tome o sol do meio-dia. faça o dever de casa. não grite com sua mãe. não coma porcarias. cumprimente seus tios. não ponha a mão na boca. não aceite carona. esqueça que há vida de madrugada. não mostre a língua. não deixe a camisinha. não fale de boca cheia. não durma até tarde. não aponte. não chore. não tome remédios sem receita. não mais que um comprimido. não mais que dois. três. quatro. não mais que dez. não vomite sobre o tapete. não morra. idiota, não morra."


Segunda-feira, Junho 25, 2007

O Hospedeiro – Biografia Resumida















Nasci nas ruas de pensamentos solitários. Não tinha sentimento para morar. Fui explorado por medos que me aprisionaram distante de onde eu era. Desisti de me libertar por muito tempo, até que um dia tentei. Fugi, e por não saber para onde ir, morei na própria ida. Falido, vivia em personalidades de aluguel, das mais baratas que encontrava. Cheguei a erros que me furtaram algumas esperanças que economizei desde cedo. Cheguei ao passado disfarçado de futuro. Cheguei a paixões que nem sempre chegaram a mim. Sem saída, cheguei à tristeza. Mas minha tristeza nunca soube me acolher. Cheguei a sonhos, depois à insegurança. Depois a sonhos. Voltei, encorajei, passava por contradições na ida-volta-e-não-ida. Guardei o endereço de algumas palavras que fiz amizade no caminho, mas nunca encontrei as verdadeiras palavras que me inventaram.


Hoje, superei meu abandono e transformei-me em uma re-invenção de mim. Não procuro mais onde viver, realizei meu sonho: sou casa própria. Estou sempre em obras e aberto a visitas. Uma moradia sólida, espaçosa e um hospedeiro insaciável: abrigo mais do que fui capaz de ser.


Sou muito mais do que já fui capaz de abrigar.


Terça-feira, Junho 19, 2007

Amores e Sonhos em Liquidação



I

Não tenho talento para negociar. Não aprendo nunca. Prometo-me ser firme, cobrar mais da próxima vez. Exigir algo justo, que valha a pena. Mas chegando o momento, acabo sendo flexível, como sempre. Já desisti de tentar me valorizar. O meu amor é amostra grátis.


***



II

“É que meus sonhos têm juros muito altos, sabe?”

“Sei como é. O sonho não para nuca de crescer, crescer...”

“Não é bem isso. É que toda vez que finalmente posso pagar o preço por ele, já ficou mais caro.”


***



III

Desconfio desses amores baratos que estão à venda por ai nas esquinas, nos bares, no trabalho, não perco meu tempo nisso. Juram que é verdadeiro, mas estragam nos primeiros meses de uso, às vezes nem chegam a funcionar. Por isso que eu estou economizando, juntando, paciente, guardando para investir. Ai você vai ver. Eu vou ter um do bom pra mim. Do melhor.


***



IV

Vendo um sonho não realizado com dez anos de uso. Acompanha três moedas especiais para lago do desejo, sete fitinhas do senhor do Bonfim e um trevo de quatro folhas. Aceito troca em qualquer realidade concreta em bom estado.


***



V

“Tem mais daquele sentimento bom de ontem ai?”

“Esqueça, já esgotou”.


Segunda-feira, Junho 18, 2007

Um amigo fez com meu texto



Rodrigo Bitencurt

Sábado, Junho 16, 2007

Baseado em Personagens Reais - II

Era um homem dedicado ao destino, fiel, comprometido com a dor. Perdeu a esposa aos quarenta e chorou para sempre. Fim de ano, os filhos traziam alguns presentes para pausar sua melancolia. Depois, rendidos, iam embora carregando consigo a própria saudade. No trabalho, discutia a todo tempo com a solidão, de maneira impiedosa. E ela escutava tudo, sem reclamar. Até que finalmente ele e a solidão saiam para aliviar a relação no boteco. E quando a tarde enfraquecia, voltavam os dois abraçados em embriaguez pelo caminho de casa. Já iam mais de três anos, me peguei bem próximo e não resisti, perguntei se não restava nada. Ele cutucou com os dedos a memória de forma semi-engraçada e foi a única vez que nasceu algo desse sujeito que me fez rir. Respondeu que havia uma esperança num lugar intocável, bem guardada. Tão bem guardada que provavelmente já esquecera onde pôs, deduzi, juntando um pouco de compaixão. Não lembro qualquer outra prosa. Lembro que tinha lá sua postura mais ou menos elegante de curvar o corpo ao caminhar. E reconheço que cultivei uma certa admiração por sua sabedoria individual. Individual porque era sábio consigo, mas os outros pouco percebiam. Ele tinha a inteligência de enganar seu próprio desespero com uma tranqüilidade misteriosa que nascia em volta das rugas dos olhos e ia até os dedos, esticados, em sono profundo. Sua tranqüilidade era uma ofensa, de tão sábia que era.


Lembro também de tê-lo visto um pouco antes da notícia, sentado numa esquina, se exibindo para a timidez. O copo de cerveja sempre de mãos dadas com ele. Nada mais posso narrar sobre o momento, é uma pena. Na verdade, a vida já o tinha deixado há muito tempo, o tempo que se atrasou em pedir que a morte viesse ocupá-lo.

Terça-feira, Junho 12, 2007

Danii




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Decifre o acaso para adivinhar nosso destino. Observe o dia que lhe pede atenção, não leve o tempo a serio, jogue fora o relógio, chegue mais perto. Vamos brincar de ter treze anos. Sorria. Conte-me tudo que já viveu, mas não tenha pressa. Repita isso que acabou de fazer. Faça algo que nunca pensou antes. Ajude a nutrir este meu vício infantil de exagerar. Sorria, Danii. Eu sei que você também gosta de sonhar meus sonhos. Coloque nossas musicas para tocar, lembre nossas palavras, não esqueça dos espaços vazios entre as palavras. Nosso silêncio também deixou suas marcas, Danii. Sorria. Preste atenção quando eu não te disser nada. Esqueça que já teve medo, esqueça todo o resto, seja educada com o dia que te pede atenção. Ofereça algo para retribuir. Feche os olhos, feche-os e enxergue um pedaço de história. A história que só nós dois conhecemos os detalhes. Só nós somos donos de nossos detalhes, Danii, sempre seremos, perceba o que acontece, sorria. Esqueça que já teve medo, aprenda tudo novamente. Depois me ensine o que aprendeu. Chegue mais perto, viaje no tempo, daquele dia até o momento, viaje até agora. Até aqui.

Sorria, Danii. Hoje é dia dos namorados.



Sexta-feira, Junho 08, 2007

Pedaços de Histórias


O Bolo

Rompeu com a covardia. Procurou a coragem. Marcou encontro, dia, horário, lugar. Finalmente iria conquistá-la. Como sempre sonhou.
Mas a coragem faltou.


***


Descanso

Nada mais poderia impedi-lo. Jogou fora o celular, as roupas, tudo que lembrasse que ele era ele, até o próprio corpo. Nunca havia juntado um sentimento tão grande de liberdade, e o contraditório é que, como nunca, sentia-se ele mesmo. Ainda não escolheu destino, talvez a mente de uma criança por perto, ou uma ave distante pra conhecer novas formas de vida. O que importa é partir logo. Um pouco de concentração, novas idéias, whisky na bagagem para qualquer emergência. Há anos ele estava tentando tirar férias dele mesmo.


***


Crescimento

Está amadurecendo aos poucos. Aprendendo. Largando a fase adulta e chegando a juventude. Esforçado, cria metas e calcula o resultado. E sabe que irá conseguir, mesmo que demore a vida inteira para alcançar. É preciso muito para se chegar a infância.



***


A Organização

Não foi fácil marcar o encontro. Não há meios de comunicação que sirvam a este tipo, e nem sempre por nome de gente podem ser identificados. Usaram um pouco de criatividade, mensagens por pedaços de sonhos e nuvens frescas em dia de outono. Mas lá estavam, organizados atrás de um arco-íris, algumas jujubas e chocolates para acompanhar a reunião. Queriam direitos, idéias. Deve haver uma maneira de espantar tanta solidão e esquecimento.
Todo amigo imaginário se sente só depois as crianças crescem.


Sexta-feira, Junho 01, 2007

Antes do Adormecer



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Gesticulava com a cabeça expressando consentimento, mas não interesse. Olha, aqui você guardará suas roupas, está vendo? E aqui os brinquedos. Na prateleira, guardará o material escolar. Viu quanto espaço? Olha só a cama, olhou, a bancada, olhou. As paredes ardiam em tinta fresca. Pintamos em azul, gostou? O chão brilhando, móveis novos, nada o despertava atração. Bastou um vacilo e distraiu-se propositalmente da voz da mãe e foi então que os pais repararam e inquietaram-se. De curiosidade, e de surpresa, e mistério bobo, e não estou certo disso, mas talvez tenha existido uma pequena dose de indignação ou desilusão misturada na fisionomia do casal. Olhava para o teto. Ele olhava colhendo alguma expectativa, forçando apenas o olho esquerdo, o direito continuava aberto um pouco triste, como se estivesse avaliando intimidade, ou falta dela, enquanto os pequenos dedos escapavam pela mão materna, suada - agora finalmente quieta por causa a cena -. Era uma expressão precisa, e digna de estudo. O teto. Vazio. Os adultos continuavam estupefatos e comungavam um silêncio embaraçado. Não reagiram por um instante até que a iniciativa do pai remediou o clima. Vamos ver o quarto da mamãe e do papai agora? E assim, por insensibilidade ou por velhice ele foi interrompido de sua própria ingenuidade, e ignorado de sua insegurança. Foi subestimado de seu gesto que olhava para o mundo dos pequenos, que eles esqueceram que existia. O mundo que não tinha nada haver com aquilo ali, que na verdade significava muito.


Naquela manhã, passaram o resto do tempo repetindo contentamento nos espaços vazios que logo seriam ocupados no apartamento novo. Olha só, aqui, guardaremos os discos. Aqui, na estante, a TV maior. Este quadro no corredor. O tapete branco na sala de jantar, o marrom na de visita. Não, melhor o branco na de visitas. O menino fiel a sua mudez, no canto, um boneco e alguns desenhos na mão, segurava firme o papel. Firme para apertar um inicio de choro que não foi notado, porque ficou preso na garganta. Lembrava a casa antiga, a cama velha, pequena. Deitado, virado pra cima, de madrugada, os olhos abertos, o quarto semi-escuro. Eles nunca iriam entendê-lo. Para uma criança, o teto do quarto não é um simples teto, é diferente, é especial. Porque é onde se guarda os sonhos.



Segunda-feira, Maio 28, 2007

O Aluno




http://100dogmas.blogs.sapo.pt/arquivo/1livros.gif


Da vida,

guardo,
o que não aconteceu.
Carrego,
o que não pude ter.
Caminho por onde
estou certo
que desconheço.

Arrisco-me para não me arrepender depois.

Sou um aluno do avesso,
aprendo quando não consigo inventar.



Domingo, Maio 20, 2007

Um Pouco de Infância e Alguns Ventos – II


A cidade era pequena, mas o verão se vestia de grande. Desconhecida, nem violência escutara seu nome. O colégio, generoso, tinha amizade boa com surpresa, mais do que com o próprio ensino. É você o menino que escreve?

Os olhos em tropeço, recusando o desafio dos olhos dela, dedos apertando os livros para se livrar das mãos. O pátio em ventania de recreio salvava o silêncio. Ele não acreditava. Ela tinha curiosidade. A notícia das redações de classe tinha chegado à Quarta série.

No início, a poesia fazia o assunto da amizade, depois, a amizade se lambuzava pelos corredores e mal cabia em poesia. Descobriram que eram vizinhos de rua, bastavam duas quadras. Em pouco tempo, viraram também vizinhos de alguma outra coisa intima deles. Mas disso ninguém sabia.

Nas férias, as tardes levavam as crianças pra brincar e depois, exaustas, adormeciam em baixo da noite. O dia não era vigiado pelo relógio, por isso não tinha pressa de ir embora. Ele gostava da praça da Igreja, no alto. Dava pra ver a casa dela. Escrevia-lhe em bilhetes os sorrisos recém-nascidos pela manhã, mãos dos guris serviam correios. Ponderava a brincadeira e paixão, um olho na pipa, o outro ansioso investigava as pistas das respostas, os méritos e aparições. Daí, chegavam poemas em abraços, versos-olhos soprados nas beiradas das ruas – bem pequenos pra que ninguém notasse, - ao escurecer, telefonemas. E as paisagens exclusivamente femininas, ilustradas atrás da voz da ligação. O resto do mundo quase não fazia diferença.

Antes do sono, costurava com lápis acontecimentos na cabeceira. Reeditava episódios, imenso dele mesmo, formatava em letras rabiscadas, trancava tudo no quarto. Mãe insistia na janta. Cauteloso, carregava trechos no bolso, as palavras na ponta da língua. Quando a retribuição vinha forte, encorajava a mão direita a cantar a dela. A esquerda, com medo, se encolhia em aviso. Incerto, corria para longe de si mesmo, mas deixava os ouvidos fazendo companhia. Ela achava que ele fechava os olhos pra imaginar. Criaram o talento de ir para mundos irreais, às vezes, mesmo sem notar, faziam um pouco de esforço e iam. E ninguém era capaz de trazê-los. O tempo, rendido, esperava.

Por alguns anos, ele mesmo esboçou uma eternidade com as letras. No quarto, esboçou as histórias, as ruas, as esquinas. Até que finalmente deixou borrar toda sua obra-prima em lagrimas, quando desiludiram sua inspiração. A família dela ia pra cidade maior, restavam as férias como despedida. Pousou duas fitas que abanavam os cabelos em suas mãos. Eu volto, desejou. E foi de vez, do lugar escondido pela própria geografia. As fitas eram pra não esquecer dela.

O quarto engasgado. O colégio esvaziando de gente, a cidade silenciando seu nome, e os vestígios dela sendo pouco a pouco arrastados pelos ventos nos lugares prediletos. Só não arrastaram os recados gravados em caneta vermelha acenando no caderno. As mensagens nas nuvens zombando distâncias, as fitas descolorindo na prateleira do quarto, e os telefonemas ocasionais, moinhos de ausências. Você lembra que eu te chamava de meu poeta? Eles nunca puderam confessar que se amavam.



Um Pouco de Infância e Alguns Ventos - I

“E depois?” “As estrelas.” “E depois das estrelas?“ “As estrelas das estrelas...” “E depois?” Risos. “Ah, não sei. Vira pra cá, vai... Você me deixa escrever seu rosto?” “E como é isso de escrever um rosto hein?” “É o mesmo que desenhar. Só que por dentro.”

Sábado, Maio 12, 2007

Baseado em Personagens Reais - I

Há anos ela está escondida nela mesma. Como quem estivesse vestindo agasalhos, um por cima do outro. E óculos de sol, chapéu, calças, luvas, capas de chuva até os pés, botas acovardando as canelas. Ela mal pode ser vista. O tempo corre em volta dela, e seus gestos e expressões presos na muralha já não a descrevem como antes, apenas avisam que há alguém ali. As vezes, eu a provocava com histórias antigas, tentando lhe arrancar pra fora, mas respondia com um personagem tão estranho no olhar que me fazia sorrir de medo. Então, mantenho esse meu eterno papel amigo-paterno de desvendá-la mesmo sem ser este o meu papel. Aperto os olhos, forço poder de ver atrás dos casacos, das mascaras acostumadas, luvas de frio-psicológico, capas pretas. Melhor, escuras. O corpo preso, colado, acomodado ao meio, a visão se confundindo nas lentes opacas. Ninguém nem lembra mais a cor de seus olhos. Ela está escondida em si há tanto tempo, que há quem pense que é uma pessoa infeliz. Mas não é. Está apenas afastada da felicidade por um tempo, de férias. Economizando. Guardando o melhor dela mesma, e observando atenta, e esperando, preparando, ansiosa, determinada. Uma determinação tristemente incrível. Ela está escondida em si, e aguarda por uma oportunidade, um sonho, um lugar, um momento. Um alguma-coisa-que-acontecerá que ela sabe que tem direito, mesmo sem saber o que. Um alguém, mesmo sem saber quem é.


Ps: Participação - correções e critica - da querida amiga e leitora Deniela Bridges.

Domingo, Maio 06, 2007

Cotidiano - I


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Acordou as nove, mas não olhou que horas eram. Vestiu o agasalho estendido na cadeira, nem fazia frio. Fez café sabendo que não iria tomá-lo, ninguém iria tomá-lo. Apenas fez.


Correu a casa verificando o silêncio, uma paz indesejada, cumprimentou as paisagens que pulavam pelas janelas.


Saiu à praça para encontrar com algumas árvores, vigiava as folhas e os sapatos das pessoas, atravessava o tempo com a imaginação. Caminhou pela calçada, passou pelo o lago, passou pelo o lago, caminhou pela calçada. O quarteirão de tão pequeno parecia sufocá-lo.


Os vizinhos roubavam-lhe de sua privacidade. Atrapalhavam sua tristeza. Permaneceu incolor, atrás dos óculos. Tropeçava em vozes, editava histórias que escutava nas esquinas. Aquele lugar é próprio à história alheia.


O vento o ajudava a caminhar, seguia com pouca pressa. Nem se preocupou em olhar para os dois lados ao atravessar a rua. O mundo só atropela o que está em destaque.


Visitou bares e copos de cerveja. Tomava uma garrafa a cada parada, exatamente uma garrafa, nada mais consumia. Voltou pelo mesmo trajeto, pouco antes das seis. Não conseguiria suportar o peso da noite.


Deixou o portão entreaberto, a espera de ventos.


Preparou o jantar, comeu apenas o suficiente, dispensou o banho. Deitou no sofá para escapar da cama vazia. Adormeceu antes que o próprio sono.

Terça-feira, Maio 01, 2007

Rascunhos



Desenhei palavras vazias. Corri três rascunhos, parei ofegante. Revisei imaginação, aparei as pontas dos dedos, fiquei tentado encontrar uma maneira de emendar poemas. Tomei estrada, dirigi textos sem rumo, além do horizonte de dentro de mim. Apertei acelerador das mãos, atropelei uma saudade que atravessava a rua. Passei para visitar um rascunho antigo, a casa tava imunda. Notei um poema semeando na mão direita, animei a esquerda, curvei as costas dos braços, puxei o teclado tentando fazer germinar. Rabisquei um grito, confundi o inicio, briguei com a segunda estrofe, apanhei de uma antítese, sai para procurar uma analogia melhor. Irritado, memorizei a origem da inspiração para saber exatamente onde não voltar a consultar. Tentei hidratar algumas idéias secas guardadas na gaveta, procurei por palavras potáveis. Caminhei em círculos por versos, fiquei tonto, mas não parei. Senti fome, fritei alguns pastéis em Mario Quintana. Falei a um amigo sobre aquela questão emendar poemas, ele sorriu e mudou de prosa - notei algumas ameaças metafóricas cintilando no enredo da conversa dele, mas não acho que ele tenha percebido.
Voltei para as palavras vazias. Reli o esboço, inverti o inicio, assassinei dois pensamentos covardes, motivei paradoxos, entortei as linhas, escorreguei na terceira estrofe, colidi na conclusão, bruscamente. Quase um acidente fatal. Fui sentindo uma certa falta de organização, desordem de idéias, mudança de ritmo. Uma bagunça.
Comecei a gostar.

Segunda-feira, Abril 16, 2007

Eu, você sem luz

"Vieste aqui para julgar minha imagem, a qual assemelha-se a repetição de tua figura sobre a face da terra. A quilometragem já não marco mais, sou tão jovem quanto és. Interpreto-te pela vida, sou artista... Sou sim, um protagonista-coadjuvante. Faço o que fazes e faço brilhantemente. Disseste que não possuo cor, que me perco em meio a escuridão. Sou um filho da luz, sou herdeiro do sol. Venho de onde não imaginas e lá estou. Sou a escuridão de tua imagem num dia de luz e, assim, acompanharei a ti pelo resto de teus dias.
Eternamente, tua sombra."


Texto de Danilo Lima que gostei muito.

Terça-feira, Janeiro 02, 2007

Restos no Espelho

Estendida de pé, Priscila observava o espelho refleti-la por inteira. Os olhos embaraçados na caída da noite, enquanto rastros de sorrisos formigavam os lábios, tentativa de juntar alguma felicidade acovardada pelo dia que ia. Estendida de pé, buscava na imagem refletida partes de si, pedaços que ocupassem vazios sem endereços.
Estendida de pé, ela observava o espelho refleti-la por inteira e comparava sua imagem de vinte e três anos, agora completos, à de menina que deixou no passado, como a fotografia esquecida na estante da sala. Mas não comparava o corpo e traços envelhecidos da face e sim o que havia por trás da obstrução dos olhos. A paixão de criança era o cinema, recordava, o sonho de ser atriz a tomava euforia de quem já fora a própria atriz. Por inocência ou por sabedoria juvenil, ela não distinguia a felicidade de sonhar com a felicidade de ter um sonho realizado. Para a menina, era a mesma quantidade de alegria. E Priscila não sonhou pouco. Sonhou sonhos diferentes, às vezes estranhamente irreais. Sonhou distante. Então, com o virar dos anos e das páginas do diário, muitas vezes inundou o banheiro em lágrimas, filtrando alguns pelos cantos dos olhos até convertê-los parcialmente em realidade. Nem ela mesma saberia explicar onde ficaram perdidos os ideais de carreira de atriz entre tantas outras fantasias. Simplesmente os deixara dissolver, despedaçar.
Estendida de pé, ela observa o espelho refleti-la por inteira, reproduzindo com os olhos de dentro sua própria imagem de menina “É um encantamento. Na escola, todos adoram!” exibia-a o pai aos parentes, mais embriagado de orgulho que da própria cerveja, nos domingos. Com dez anos de idade, não havia motivo para dar atenção àquele tipo discurso-chato de família, era nova demais para interessar-se pela beleza que existe no simples fato de ser adorada por alguém. Priscila cresceu esquecendo em cantos incertos pedaços da menina de colégio que extasiava os olhos do pai. Distraída, deixou cair alguns pelo caminho do ginásio, permitiu que as mãos do coração largassem outras partes depois dos quinze, foi perdendo-se, pedaços, pedaços, e aquela frase de infância começara a ter significado maior em sua consciência, talvez a alegria do pai não fosse mesmo tão boba. Algum significado ia se criando justamente porque com o tempo já não se sentia merecedora do gesto com mesma dose de justiça. Confusa disto, confusa de si, não notou que foi desfazendo-se ainda mais em ínfimas partes invisíveis, migalha a migalha, como quem fora esfarelando por dentro. Segundo grau. Faculdade. Ainda guardou amostras quais julgava bonitas e embalou em papéis coloridos para desperdiçar nas mais altas apostas de amores. E apostou sem medo. A cada nova paixão, uma cor de embalagem e novos pedaços deixados, nestas ocasiões tristemente maiores. Existiu também um pouco daquela alegria inocente de infância nos embrulhos dos amores de Priscila. A mesma alegria inocente dos sonhos de atriz quando menina.
Estendida de pé, ela observa o espelho refleti-la por inteira, perguntando-se onde poderia ter deixado escapar tantas partes importantes do seu corpo interior. O que a vida lhe dissera ou fizera para enganá-la a ponto de fazer doar-se e desfazer todas aquelas crenças e sonhos que faziam de Priscila muito mais Priscila. Estendida de pé, Priscila observa o espelho a refleti-la por inteira, e chorava; porque ela não era mais inteira. Ela era a sobra.




Origem da imagem : stockphotos.com.br
PS: Texto baseado em um comentário de Mônica Goes aqui no blog